Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
rato mia
o meu rato mia. couto, entenda-se.
as palavras saem-lhe da boca como ao mia dos dedos.
congelhar. (congelhar é um congelar engelhado. só pode.)
empulheta. (empulheta será o objecto que o governo usa para fazer o tempo passar enquanto nos empulha.)
o meu rato mia. e eu mio também.
alguém quer um engelado?
o ampulha gaspar já foi de vela. é favor seguirem-lhe o exemplo!
gosto muito quando as palavras se nos encaramelam na boca, como acontecia com o menino do pina.
cada homem é uma raça. mas cada rato é a raça inteira.
sábado, 21 de abril de 2012
palagens
Digo para mim mesma, há uns anos, que só me falta ser educadora de infância.
Ainda serei capaz?
A E., que tem a sorte de passar os dias com nossos filhos e que anda atenta, contou-me, na quinta-feira, a propósito de um menino que se veio queixar de ter levado um chutapé, que o João (um desses nossos filhos) lhe tinha pedido, uma vez, durante a leitura de um livro, se depois podia "mostrar as palagens".
Acho que ficou finalmente inventada a palavra que nos faltava para designar aquilo a que, imprecisamente, andamos a chamar ilustrações.
Era preciso alguém de quatro anos para a inventar!
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domingo, 5 de junho de 2011
do sentido e das palavras
O F. começou a aprender na escolinha a canção que a Suzana e a Regina escreveram para a época.
Só que as palavras têm que ganhar sentido quando são cantadas e por isso o F. canta assim:
"Santos que estais no Algarve,
Cuidai das vossas ovelhas
Das novas porque são novas
das velhas porque são velhas"
E por aí fora.
Claro que mesmo a Regina que é capaz de muita coisa, não se lembrou de pôr os santos no Algarve.
mas por mais que expliquemos ao F. o que é o altar ele continua na dele e lá manda as santidades para o reino dos Algarves. Faz sentido!
Reconhe Pedro, o mais sisudo, António, o casamenteiro, e João, menino que é pastor, mas adiante para os Algarves.
E siga a rusga!
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
o erro como metáfora
Depois de a S. ter dado um saquinho de sementes de cores ao F., que ele comeu umas atrás das outras resistindo convictamente aos pedidos suplicantes dos irmãos de "Por favor, dá-me uma amêndoa, só uma, por favor!"
Depois de um novo filme de Miyzaki em que uma bruxa esformou um menino em porco e a transformação, tanto quanto pude perceber do que vi do filme foi definitiva.
Depois de pensar muito sobre a escola, o erro, os meus filhos, a vida em geral... Acho que vou inventar a pedagogia do erro. O erro ao poder como forma subversiva e criativa de esformar a escola num sítio mais encostado a nós, onde se lancem à terra sementes de cores para que o mundo se transforme num sítio mais colorido, perfumado e agradável para vivermos.
Além de tudo, como eu própria vou começar (ou já comecei) a dar erros ortográficos nada melhor que instigar o erro nos outros!
Viva o erro! O erro ao poder! Viva a subversão!
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terça-feira, 29 de março de 2011
entre o oral e o escrito, o sentido prevalece
No ano passado, o A. passou uma vergonha na escola por ter escrito Jesusalém, em vez de Jerusalém. Nunca tendo visto a palavra escrita, fazia todo o sentido, para ele, que o topónimo fosse Jususalém!
Ontem, aconteceu o mesmo com o F.. Enquanto jantávamos, o V. contava os presentes que tinham sido oferecidos à sua amiga A., no domingo.
- Além de uma bolsinha com baton e essas coisas, não sei quem foi deu-lhe o livro do Ulisses.
- Do Tolices? - inquiriu logo o F.
Gargalhada geral, está-se a ver.
Mas, na verdade, não havia que rir.
Ulisses ainda não significa nada para o F. (a seu tempo lá chegará) e tolices é uma palavra com um sentido profundo na sua vida de quatro anos (e que quatro!).
Por mim, não vejo problema nenhum nestas confusões.
Afinal, antes de casar com o pai deles eu própria lhe perguntei uma vez, na frente do Atlas, que me dissesse onde era o Islão, que eu nunca tinha percebido. Naturalmente, ele riu-se. Mas casou comigo porque, na verdade, o conceito era bastante geográfico!
Em contrapartida, tive de lhe mostrar no mapa a Patagónia. É que ele achava que era a terra do Tio Patinhas... Fazia sentido!
A questão do erro é uma questão de conceito e preconceito. Digo eu!
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sexta-feira, 25 de março de 2011
tapetes
- Mãe, sabes o que é mesmo ridículo na nossa casa?
- Não! (ia lá eu imaginar que tinha coisas ridículas dentro de casa!)
- Os tapetes!
- Os tapetes?!
- Sim, quando queremos jogar futebol temos que enrolar-los para jogar.
- Pois... o teu tio até costuma dizer que os tapetes só servem para a gente tropeçar neles e cair.
- É verdade! Uma vez eu tropecei no tapete e caí.
- Se calhar nós é que somos ridículos por pormos tapetes em casa para cairmos...
- Realmente!
Será que depois desta conversa o significado da palavra ridículo ficou um pouco mais claro na cabeça de 4 anos?
quinta-feira, 17 de março de 2011
a plasticidade da língua
Mas cá em casa, como é público, cultivamos a plasticidade e o divertimento.
O F. hoje propos-se fazer-me uma arranjação na cozinha com uns canudos de cartão e o A., ao vir da escola, explicou-me que os indianos são vegetarianos porque acreditam no reencarnamento das pessoas nos animais.
Eu que, graças ao Sr. Pompeu, à minha avó e ao meu pai (todos juntos mais eu própria e o meu difícil feitio!) sou verdadeiramente insuportável em matéria de correcção linguística, acho péssimo que se corrijam vocábulos expressivos como estes e declaro em voz alta que os meus filhos falam muito bem, porque têm um vocabulário activo mais rico que o da média da população, exprimem-se com rigor e clareza e entendem bastante melhor o que eu digo que os meus alunos e colegas. Além disso, não sofrem de alexitimia, como muita gente que anda por aí à solta.
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010
palavras
O F. está a crescer (só enquanto dorme, claro!) o que quer dizer que as palavras que usa estão a crescer com ele.
Anteontem, ao jantar, perguntou-me:
- Sabes o que é uma mocidade?
E nem esperou pela resposta:
- Uma mocidade é muitas pessoas!
Tive alguma pena de ter de lhe explicar que muitas pessoas é uma multidão. É por estas e por outras que não temos um vocabulário criativo como o do abensonhado Mia Couto.Mas, felizmente, o F. ainda diz:
- Eu estava muito sugadinho e veio o A. e inrompeu-me!
Ah, e a pirileca entrou definitivamente no nosso vocabulário. Ainda assim nem tudo se perde!
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