Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

pausa


Ele tem cinco anos e dezasseis dias, exactamente. Ontem menos um dia, portanto, e disse assim, enquanto lanchava:
- Vou fazer uma pausa no leite!
E parou de beber para comer bolachas.
Depois, perguntou ao irmão mais velho:
- Vais tocar guitarra eléctrica ou acústica?
A falar assim aos cinco anos ainda temos esperança de que o português se safe da barbárie dos acordos ortográficos e quejandos!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

o erro como metáfora


Depois de uma reunião da escolinha em que uma mãe revelou que a filha dizia pico encostado em vez de pico emprestado, demonstrando uma capacidade metafórica de que nem todos os escritores (deveria dizer escrevedores, mais propriamente) são capazes, uma vez que os picos emprestados ficam, de facto, encostados ao cartão para onde deveriam ter saltado não tivesse alguma coisa corrido menos bem durante aquela semana.
Depois de a S. ter dado um saquinho de sementes de cores ao F., que ele comeu umas atrás das outras resistindo convictamente aos pedidos suplicantes dos irmãos de "Por favor, dá-me uma amêndoa, só uma, por favor!"
Depois de um novo filme de Miyzaki em que uma bruxa esformou um menino em porco e a transformação, tanto quanto pude perceber do que vi do filme foi definitiva.
Depois de pensar muito sobre a escola, o erro, os meus filhos, a vida em geral... Acho que vou inventar a pedagogia do erro. O erro ao poder como forma subversiva e criativa de esformar a escola num sítio mais encostado a nós, onde se lancem à terra sementes de cores para que o mundo se transforme num sítio mais colorido, perfumado e agradável para vivermos.
Além de tudo, como eu própria vou começar (ou já comecei) a dar erros ortográficos nada melhor que instigar o erro nos outros!
Viva o erro! O erro ao poder! Viva a subversão!

quinta-feira, 17 de março de 2011

a plasticidade da língua


O português é, efectivamente, uma língua plástica e divertida. Os portugueses é que nem tanto.
Mas cá em casa, como é público, cultivamos a plasticidade e o divertimento.
O F. hoje propos-se fazer-me uma arranjação na cozinha com uns canudos de cartão e o A., ao vir da escola, explicou-me que os indianos são vegetarianos porque acreditam no reencarnamento das pessoas nos animais.
Eu que, graças ao Sr. Pompeu, à minha avó e ao meu pai (todos juntos mais eu própria e o meu difícil feitio!) sou verdadeiramente insuportável em matéria de correcção linguística, acho péssimo que se corrijam vocábulos expressivos como estes e declaro em voz alta que os meus filhos falam muito bem, porque têm um vocabulário activo mais rico que o da média da população, exprimem-se com rigor e clareza e entendem bastante melhor o que eu digo que os meus alunos e colegas. Além disso, não sofrem de alexitimia, como muita gente que anda por aí à solta.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

a ranhada


Não consigo habituar-me à ideia de que em breve toda a gente (talvez excepto eu!) esteja a escrever com erros, isto é, em tácito acordo com o novo acordo ortográfico.
Lembro-me que a minha avó materna (que nascera em 1917) escrevia "assúcar" assim mesmo e lembro-me igualmente de achar que eram a idade e a sabedoria que lhe davam o estatuto de escrever açúcar assim e não como eu.
Por conseguinte, tenciono assumir a idade e a sabedoria da minha avó e continuar a escrever as palavras como o Sr. Pompeu me ensinou. Sem erros.
Entretanto, vou empenhar-me em que a nova geração desenvolva aquela capacidade mágica que o Mia Couto representa tão paradigmaticamente de inovar o vocabulário, tornando o português numa língua expressiva, criativa e, sobretudo, bem disposta.
Comecemos, pois, pela "ranhada", no respectivo contexto.
- Sabes, mãe, ontem é que foi, na casa de banho, aquela ranhada, tanta ranhada que até chegava até à boca e tinha uma catota no meio e tudo! - disse o F. hoje de manhã no meio de uma panqueca com canela e acúcar.