Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro
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quarta-feira, 14 de março de 2012
ainda o tempo
Sete e dez da manhã.
- Mãe, hoje só vou beber uma caneca de leite por ano. (faz uma pausa e começa a coantarolar) O ano novo parece igual ao velho... (uma canção dos Gambozinos) O que é ano?
- Ano é todos os meses... é o que tens de esperar para fazer anos outra vez...
- Hum... E quando é que te vais levantar?
- Às sete e vinte.
- O que é isso?
- Sete horas e vinte minutos. Daqui a dez minutos...
- Quanto tenho de contar?
- Dez vezes até sessenta!
(Vira-se para o lado e começa a susssurrar.)
Sete e um quarto da manhã.
- Já está! Já contei dez vezes até sessenta.
- Ok. Foi um bocadinho depressa...
- Eu contei: um, dois, três (rápido), tchc, thc, tchc...
- Ok, vamos levantar!
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sábado, 18 de fevereiro de 2012
amanhã
- Hoje é sábado, não é?
- É.
- Então hoje é amanhã!
- ...
- Eu estou a fazer de conta que hoje é sexta-feira e ontem eu disse amanhã é sábado. E hoje é amanhã, não é?
- Parece que sim...
E aquela coisa da máquina de fazer passado torna-se ainda mais complicada. Porque, afinal, o presente também é uma máquina de (não?!) fazer futuro.
Sim, porque hoje é amanhã, está visto!
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
logo
- Logo é agora, mãe?
- Não... logo é mais tarde...
- Mas tu à tarde disseste logo se vê. É agora?
- É... acho que sim...
- Logo é agora?
- Logo é agora. Sim.
O valter inventou a máquina de fazer espanhóis. O Oliveira (o Manoel de) dizia que o presente é uma máquina de fazer passado.
E nós talvez tenhamos descoberto que logo é uma espécie de agora adiado.
Isto do tempo tem muito que se lhe diga...
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
o tempo
Afinal o tempo do relógio não é só uma escada rolante.
É, também, uma estafeta.
A F., a educadora do F., deu-lhe uma imagem absolutamente encantadora do tempo.
Ele explica assim:
- O tempo dá sessenta passinhos, o ponteiro dos minutos bate na mão das horas e ela dá um passinho. Assim, como na estafeta. E sabes, mãe, os relógios a sério têm três ponteiros... Mostra o teu! Não é a sério!!!
Afinal, não só somos postos na escada rolante do tempo, ao nascer, como nos desafiam para uma estafeta de vida.
Quem é que pode achar que a vida não é emocionante?
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
a reversibilidade do tempo
O F. já não diz amanhã fui, mas a reversibilidade do tempo ainda é uma possibilidade real.
Além de me prometer sucessivamente que depois de fazer 5 anos vai voltar a ser bebé, porque quer muito voltar a ser bebé, o F. tem um tempo mental (e provavelmente emocional) muito diferente do nosso (e que sorte a dele!).
Ontem, foi cortar o cabelo. O F. adora cortar o cabelo e é um gozo vê-lo a olhar-se no espelho enquanto a tesoura faz tchc, tchc.
Hoje de manhã, enquanto ainda se ouvia o chhhhh do chichi da noite a escorregar na sanita, perguntou-me:
- Ainda estou com o cabelo cortado?
Claro!
- Deixa ver...
Com uma mão enfiou a pilinha dentro dos calções do pijama, trepou para cima da tampa da sanita, fechada já com a outra mão, e olhou-se no espelho:
- G'anda cena!!!
O tempo é, de facto, uma coisa extraordinária,
Ou, como ele próprio diria, uma g'anda cena!
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