Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

quinta-feira, 11 de abril de 2013

faz sentido?

regressados de seis dias de gambozinices na aldeia, os meus filhos vêm enormes.
enormes de felicidade.
enormes de sentido.
enormes de capacidade para discernirem, os mais velhos, o que a escola lhes não dá.
o que os gambozinos lhes deram e dão e continuarão a dar.
faz sentido uma escola sem sentido?
todas as manhãs me pergunto por que raio os obrigo a ir para uma escola sem sentido.
e a única resposta com que consigo satisfazer-me transitoriamente é: porque terão de ser eles a dar sentido à escola.
faz sentido?
(nem eu própria acredito...)



sábado, 6 de abril de 2013

na aldeia

Seis dias na aldeia.
É assim que começa o terceiro período n'Os Gambozinos.
Aqui a casa está vazia. Lá deve estar cheia.
Como o coração deles.
E o meu.
(esta postagem é dedicada à Claúdia Almendra, por ter reparado em nós)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

esquerdo ou direito


Um lanchinho com o F.. No meio do leite com chocolate vem a bomba:
- Mãe, eu sou esquerdo ou direito?
Fico completamente às escuras.
- E tu? És esquerda ou direita?
Ah! Faz-se luz!
Temos uma longa conversa sobre o grande capital, distribuição de riqueza, poder económico, opressão, exploração. Tudo coisas que deslizam bem com leite com chocolate!
-E eu? Sou esquerdo ou direito?
Pois. Isso terás um dia de ser tu a decidir.
Essa parte não me compete.
É assim que eles crescem, não é?
(E ainda é analfabeto. O que será quando começar a ler...)

terça-feira, 26 de março de 2013

habemus Moretti

Não sou freudiana. Mas gosto particularmente de uma história que se conta sobre Freud.
No final de uma conferência, uma senhora interpela-o, em urgência:
- Senhor Professor, diga-me, por favor, o que devo fazer para ser uma boa mãe?
Freud pára uns segundos e depois responde:
- Faça o que quiser e o que sentir, porque de qualquer maneira vai fazer mal feito.
Acho que é esta a única grande lição de Freud para mães-galinhas-coruja-canguru como eu!
A outra grande lição são os filmes deNanni Moretti.

 
Sonhos de ouro é um filme de 1981, com um Moretti ainda muito novo, mas já absolutamente genial.
Ainda assim, Habemus Papam continua a ser o meu preferido.
 

 
Digamos que é um luxo ter Moretti e Piccoli juntos no Vaticano.
A arte é um milhão de vezes melhor que a vida.
Felizmente faz parte da vida. Digo eu.

terça-feira, 19 de março de 2013

ao avô


 
"A relação entre avós e netos é muito importante e só traz benefícios. Sem ela, perdemos muito. Os avós são uma espécie de pais que já foram promovidos, como no exército, quando nos chamam e nos dizem, Sr. Carlos, foi promovido a tenente. Com os avós acontece o mesmo, só que não recebem medalha alguma.
A convivência entre duas gerações distintas é essencial, devido aos diferentes conhecimentos, pois ambas se podem ensinar.
Um avô é alguém que toma conta de nós, e nós também tomamos conta dele. Se esta relação não existir é como se se tivesse apagado o passado com um pano molhado, por isso não devemos molhar a cara aos nossos avós. Um avô húmido é um avô estragado!
Quando estamos com alguém mais velho, alguém que já viveu a sua vida e dos filhos, alguém que conhece o mundo melhor do que outro ser qualquer, se estivermos com eles ganhamos essa sabedoria, como se fôssemos ligados um ao outro e os avós transferissem a sua sabedoria para nós, mas num ficheiro comprimido, que ao longo dos anos vamos abrindo.

Mas, a melhor de todas as coisas é quando o avô nos dá um abraço, uma abraço como não existe outro, quentinho, aconchegado e com tanto sentimento que até temos de abrir a boca para que consiga entrar, e para não ficarmos de boca aberta, ali parados, aproveitamos para dizer “adoro-te”.
Por isso mesmo, ter um avô é como ter um doce, mas que acaba. Por isso, aproveitemos ao máximo. E lembrem-se: os avós odeiam não receber medalhas na promoção.

                                                                                                                             Ao Avô…
Nº de palavras: algumas, suficientes. "

(Afonso, 21 de fevereiro de 2013, composição no teste de Português, 8º ano)

sábado, 9 de março de 2013

a colheita de 71

valter hugo mãe e afonso cruz.
a colheita de 71.

"Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz, Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve.. e não estou a brincar.
Faz-me a alma luxuosa. Passo a ter jóias na imaginação"
(Valter Hugo Mãe)


evergreens é também um luxo. por dentro e por fora.


cá em casa bastou mostrar um bocadinho dos livros e dos discos. e eles ficaram maravilhados.
eu... eu estou completamente dependente.
mas eu sou assim. uma obsessiva.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Jonita



Estamos todos com os olhos cansados das lágrimas e os corações assustados das saudades que nunca vamos matar. Na quinta feira à noite soube que estavam à espera da hora certa para lhe desligarem as máquinas e tive de guardar tudo dentro de mim até sexta às seis da tarde, quando juntei os três
à minha volta e partilhei com eles a notícia. Julguei que ia rebentar. E desde aí estamos mais juntos, mais próximos, mais certos do que é importante para nós.
Os rituais antropológicos de celebração da vida no momento da morte são de uma força telúrica esgotante. No domingo, revolvemo-nos como o mar, como a terra. Subimos montes e calvagámos planícies em segundos. Vivemos a felidade dentro da mais profunda tristeza. E descobrimos que os extremos se tocam. Porque a vida é um cíclo fechado e por isso não tem fim, disse a Teia. Mas o infinto nem sempre cabe dentro de nós e derramam-se-nos as lágrimas como ondas que nos querem encharcar o corpo para que nos lembremos de o enxugar.
Era mãe. E a sua filha mais velha, aTeia, como não podia deixar de ser leu um excerto de O Principezinho. E ganhámos o trigo, como a raposa. E depois cantámos. Porque a vida dela era também feita de canções. E a mãe dela sorriu, um sorriu grande. Feliz por ter dado à luz uma filha enorme.
Só quero que um dia me recordem assim. E chorem, com o coração encharcado em memórias boas, boas, como eram os beijos dela, que nos ficavam agarrados à bochecha como o sol quando quase nos queima.
Só quero que um dia os meus filhos fiquem no ar, em pleno voo, como ficaram os dela. E precisem apenas do vento para continuar a voar.
A vida é uma missão e a Jonita cumpriu-a, disse o Afonso.
Agora a Jonita está espalhada em todos nós, disse o meu pai.
Que bom estar protegida entre duas gerações tão sábias.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

água das pedras


O V. pediu-me para lhe comprar uma garrafa de água das pedras limão.
No carro, o F. pede para provar. O irmão, mais velho, adverte:
- Cuidado, é um bocadinho forte...
O F. prova e franze as sobrancelhas:
- É bom, mas gosto mais de coca-cola, esta tem muitas pedras!
(passe a publicidade. às pedras, claro!)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

brincolagens

Jogar é bom. Mas melhor ainda é quando o jogo foi feito cá em casa, com umas brincolagens (é linda a palavra!)


quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

No primeiro dia em que a Rosa ensinou o F. a escrever o seu nome, ele declarou:
- Hoje aprendi a escrever o meu nome... mas não foi em português!
Isto foi em meados de Setembro e o que ele queria dizer é que tinha aprendido a escrever o nome em letra cursiva.
Anteontem, sentou-se ao meu colo, entre mim e o portátil, e pediu:
- Podes escrever Madureira? Mas não é em português...
Escrevi em maiúsculas e ele disse que não era assim. Escrevi, então, em minúsculas e ele assentiu:
- É isso! Deixa estar assim que eu traduzo.
E começou a copiar com aquela caligrafia de quem aprendeu a desenhar as letras com o corpo todo.
É bonito, claro, mas alguém me pode explicar por que razão as nossas crianças têm de aprender quatro abecedários diferentes mal começam a aprender a escrever? Maiúsculas de imprensa, minúsculas de imprensa, maiúsculas cursivas, minúsculas cursivas... Será que o manuscrito cursivo ainda faz sentido, agora que a pena já não desliza sobre o papel?
É assim nos outros países do mundo, ou somos só nós que temos esta idiossincrasia?
A verdade é que o resultado ao fim de poucos anos de prática de escrita é que a maior parte de nós já encripta em vez de escrever e os que escapam aos hieróglifos modernos tendem a converter tudo em letra de imprensa.
Não estaria na hora de alguém parar para pensar...
Os meus amigos ingleses têm uma caligrafia primorosa. Todos!


sábado, 12 de janeiro de 2013

sabedoria

(2013 é, decididamente, o ano das palavras. Estou incapaz de inserir imagens no blog. Deve ser algum desígnio divino que me está a ser enviado através do ciberespaço.)

O A. é o mais parecido comigo em matéria de mãos. Tem formigueiros. Bichos carpinteiros.
Precisa das mãos para transformar as ideias em coisas.
Desde as férias do natal que anda a construir um jogo elétrico.
Mas quer ser independente (que é o que se quer com 13 anos!) e está a fazer tudo sozinho, apenas pedindo pontualmente uma ajuda. Hoje:
- Mãe, tu que sabes muito explicas-me aqui isto?
- Eu?! Eu não sei muito de nada...
- Sabes muito de ser!
A uma afirmação destas responde-se com um beijo lambuzado (que eles limpam com a mão logo logo) e depois vai-se a correr para a casa de banho pingar a baba para o lavatório.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

a verdadeira história dos pássaros

Se não fosse 10cm mais baixo, 10kg mais gordo e 10 anos mais velho do que o meu irmão, tinha-lhe feito um mimo nas costas para o surpreender. Quando lhe vi o rosto era ele. Com aquele ar familiar de filho de mil homens.
Não sei se ainda está na Islândia, a escrever. Mas hoje veio ao Porto, provavelmente apenas para que no dia 7 de janeiro de 2013 às 14h15m eu pudesse sentir o estremecimento de andar à volta dele durante uns minutos e de lhe ouvir a voz macia.
Não resisti ao jogo da presença da figura pública. Andei à volta de mr. esgar, até o homem que inventou a máquina de fazer espanhóis perceber que fazia questão de não o incomodar. Dei-lhe tempo para a contabilidade e circulei de modo a que o nosso reino se invertesse e passasse a ser ele a seguir-me. A dois passos de distância,  descemos um lance inteiro de degraus. Inverti 180º num silencioso corpo de fuga para ter a certeza que o deixava ir à sua vida.
Só me senti assim uma vez. Foi há para aí trinta anos, quando o Chico entrou em palco no Coliseu.
Ficou-me sempre uma espécie de remorso...
Se fosse cronista tinha tido que escrever sobre isto. Como felizmente não sou, fico apenas com a memória de ter estado a dois degraus de distância de quatro tesouros e ter tido a delicadeza de não lhes tocar. Escrevi pela minha mão a história do homem calado. Os pássaros são criaturas livres e devem voar assim. No mesmo céu, sem se falarem. Trocando voos, à distância de um a penas.
Escondida na cor amarga do fim da tarde, saboreio o resto da minha alegria seguido da remoção das almas.
Há gajos que nasceram para nos fazer estremecer. Uma das mais belas coisas do mundo!
"a partir de agora estarei em território sagrado, escrevendo.
virei à tona para respiro, para me lembrar de quem sou, mas estarei profundamente limitado nos contactos.
não responderei a mensagens, não poderei aceitar convite algum, não me desconcentrarei.
este é o tempo fundamental do meu trabalho. preciso deste tempo e desta disciplina para ser quem sou.
estarei com esta e outras fotografias na cabeça. o lago que gelou e me deixou passear em cima como se o lugar dos peixes tivesse enlouquecido. gostei muito. ficou lindo."

domingo, 6 de janeiro de 2013

pelo umbigo

(O meu blogger recusa-se a inserir uma imagem nesta postagem... Lá terá as suas razões!)

Aos seis anos, o F. vê o mundo ao nível do meu umbigo. Descobrimos os dois anteontem.
Sim, porque antes disso, ele já viu o mundo ao nível dos meus joelhos, e por aí acima...
O que é preciso explicar aos adultos para que percebam o ponto de vista?
O deles aumenta desmedidamente ao longo da infância. O nosso tende a diminuir.
O meu objetivo para este ano é ir subindo o meu ponto de vista, até ver o mundo em planta.
Um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade.
Digo eu. Fim de citação.

domingo, 16 de dezembro de 2012

desenhos

Aos seis anos, os presentes de natal são sempre grandes!
E às vezes tão grandes que é preciso uma escada para lhes chegar ao topo.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

indevidos

 
Como neta de professora primária e professora (também) tenho horror a erros ortográficos.
Mas confesso que há erros muito criativos.
O A. povoa tudo o que escreve com erros, para grande tristeza minha.
Ontem encontrei um dos seus apontamentos de estudo da disciplina de Ciências e lá estavam os ecossistemas povoados. De indevidos. Fiquei possessa, escusado será dizer.
Mas por pouco tempo. Porque, a bem dizer, o nosso ecossistema político está completamente povoado de indevidos.
Talvez não fosse um erro, mas um trocadilho inteligente...
Pelo sim, pelo não, deixar-me-ei ficar na dúvida. Sou mais feliz assim.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

receita de felicidade com grão

Depois da receita de felicidade com cerejas, o canhão de massa com grão proporcionou-nos um jantar de gargalhadas único.
É fácil:
1. fazer massa de canudos grossos com grão para o jantar;
2. sentar os filhos à mesa e servi-los;
3. com o garfo e a faca e muita perícia enfiar um grão dentro do canudo de massa;
4. com o garfo dar uma pancada na massa de modo a projetar o grão para dentro da boca.

É virtualmente impossível, mas proporciona uma felicidade extraordinária.

pássaros zangados, irmãos felizes

Ter irmãos é, no mínimo, a melhor coisa do mundo.
Mas ter irmãos que fazem bolos é, no mínimo, a melhor das melhores coisas do mundo!


Estes seis anos serão sempre mais um momento de partilha entre irmãos para eles lembrarem...


domingo, 2 de dezembro de 2012

mytenes

Não me chamo Sandra.
Não sou sueca.
Não vivo na Alemanha.
Não as faço em crochet.
Não as vendo.
Não lhes chamo wrist worms.
Mas cada vez gosto mais delas.

 
 
Nos dias bons faço um par por noite.
Nas noites mais longas consigo dois pares.
 
 
As primeiras já seguiram para Lisboa para a Avó Mané. Nem deu tempo para as fotografar!
Chamei-lhe Mytenes, porque são minhas, só por isso.
 
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

iogurtes



Ao pequeno-almoço:
- F., tiras também do frigorífico um iogurte para mim? Dos sólidos, por favor...
- Queres de côco... ou de vaca?
- De vaca, por favor!
Para que conste, também já tivemos gelado de porco na arca!



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

pão de centeio


Aos cinco anos as palavras encerram uma riqueza tão grande que é de perguntar por que razão havemos de crescer e tornarmo-nos tão incapazes.
No sábado, fomos à Montra Nacional na Alfândega para conhecermos o que por cá se faz. Entre cães, queijos, submarinos e as magníficas peças da Sara Maia, um stand vendia crepes de centeio.
O F. estranhou o cheiro e expliquei-lhe de onde vinha.
No domingo de manhã, ainda no quentinho do édredon, o F. revisita mentalmente a Montra.
- Mãe, o que é centeio?
- Centeio é um cereal, como o milho e o trigo. É o daquele pão mais escuro que temos às vezes cá em casa.
- Pão de centeio... Pão de centeio é pão que se senta, não é?
Pão de sentei-o... não é mal visto, pois não?