Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Preposições 1

Na sexta-feira passada, o V. trouxe para casa o sofisticado TPC de língua portuguesa que consistia em copiar do manual, nada menos do que cinco vezes, as preposições.
Perante a minha cara e pergunta dele "O que é que eu aprendo com isso?", convertemos o trabalho em escrever uma frase para cada uma das preposições. Rimo-nos durante mais de quinze minutos, o V. aprendeu tudo o que havia para aprender e terminámos assim:
Trás: Trás-os-Montes! Traz tu!
Enquanto os professores não pensarem no que querem que os alunos aprendam este mundo não anda para a frente.
Mas há volta a dar-lhe, como ficou provado!!!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Gandhi aos 13



Ontem o A. fez 13 anos e o presente da passagem de criança a teenager que me pediu foi para acabarmos de ver o "Gandhi" juntos. Ele só vira a parte da África do Sul. Um quase nada muito importante, portanto.

Revi, com ele, o portentoso filme de Attenborough, o gigantesco Kingsley (não esquecendo as duas mãos cheias de fabulosos actores ingleses e indianos)  e o verdadeiramente reencarnado Gandhi.
Já vi o filme mais de dez vezes e nunca me canso.
(Acho que já sei quase metade das deixas de cor!)
O V. viu-o aos dez anos, digo, aos nove (no 4º ano), na escola, e reviu já algumas partes comigo.
Até o F., debaixo do sono dos seus cinco anos, já mostrou curiosidade em ver com mais atenção o filme do "velho sem fome" (que é como os irmãos lhe chamam!).
Acho que ainda podemos construir um mundo em condições se começarmos assim.
Digo eu.

sexta-feira, 30 de março de 2012

paraíso

Para mim (e para eles!), o paraíso é isto...
... e isto...
... e isto...
... e ainda isto!
Estaremos de volta, um dia!

quarta-feira, 21 de março de 2012

quarto escuro


Já não é a primeira vez.
- Hoje, F., ficas um bocadinho até mais tarde na escolinha que eu tenho uma reunião... Não sei é se vai dar para jogares ao quarto escuro que agora só fica noite bastante tarde...
- Não faz mal... temos os estores... E o quarto escuro é sempre com os olhos fechados. Mesmo quando está escuro!
Já ruminei este quarto escuro quase um mês. E continuo!
O pensamento é como as flores!

quarta-feira, 14 de março de 2012

ainda o tempo


Sete e dez da manhã.
- Mãe, hoje só vou beber uma caneca de leite por ano. (faz uma pausa e começa a coantarolar) O ano novo parece igual ao velho... (uma canção dos Gambozinos) O que é ano?
- Ano é todos os meses... é o que tens de esperar para fazer anos outra vez...
- Hum... E quando é que te vais levantar?
- Às sete e vinte.
- O que é isso?
- Sete horas e vinte minutos. Daqui a dez minutos...
- Quanto tenho de contar?
- Dez vezes até sessenta!
(Vira-se para o lado e começa a susssurrar.)
Sete e um quarto da manhã.
- Já está! Já contei dez vezes até sessenta.
- Ok. Foi um bocadinho depressa...
- Eu contei: um, dois, três (rápido), tchc, thc, tchc...
- Ok, vamos levantar!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pulotão


- Mãe, sabes o que é maior que a Terra?
- ...
- O espaço! E maior que o espaço? A cidade!
- Hum... a cidade é na Terra...
- Pois, o planeta... Há mais planetas?
- Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno, Plutão!
(ri-se e levanta-se começando a saltar pela cozinha fora)
- Pulotão! É para dar muitos pulos!
(continua a rir e a saltar)
- Saltitão, pulotão...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

naturais e inteiros


Já foi há mais de uma semana, quase duas, e ainda estou a digerir...
- Mãe, zero mais zero é um?
- Não, F., zero mais zero é zero.
- Então um mais um é um!
- Pois, mas um mais um é dois, queres ver (e mostro-lhe um indicador de cada mão).
Deitado no chão da cozinha, estica os indicadores e coloca o direito sobre o esquerdo.
- Um mais um é T!
- Pois é!
Abre um V com os dedos da mão direita e cruza-o com o indicador da mão esquerda.
- E dois mais um é A!
- É verdade!
(já escrevi um ror de páginas sobre os traços distintivos entre letras e algarismos, entre números e palavras, e o F., de repente, mostra-me como é tão fácil e bom brincar com ambos!)
Ao jantar, o A., que ouviu a conversa pelo canto da orelha, reclama:
- F., zero mais zero não é um! É lógico! Se não tens nada mais nada é nada. Zero não é nada.
- Não é assim tão lógico, A. O zero não é um número natural, é inteiro. Não é natural somar quantidades zero, já pensaste?
- Pois, mas zero mais zero só pode ser zero!
- E pela lógica, como disse o F., um mais um será um...
- Claro que não!
- Claro para quem?
Ando a digerir esta conversa há muitos dias e resolvi que este ano não vou ensinar geometria aos meus alunos. Vou fazer com que eles descubram e aprendam. Porque a escola anda a dar cabo da riqueza do pensamento dos meus filhos e a formatá-los para não pensarem. E eu não quero, decididamente, contribuir para isso. Quero que eles continuem a saber pensar e a querer pensar sobre as coisas fantásticas da vida, sejam pessoas, números, letras, ou outra coisa qualquer... Tudo, de uma maneira geral!
Este ano vou pôr os meus alunos a ver coisas bonitas através da minha colecção de caleidoscópios. E eles vão aprender muito mais geometria do que alguma vez lhes conseguiram ensinar. Digo eu...

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

all you need is love


Ontem:
- O que é romântico, mãe?
- Romântico?! É... assim uma coisa do amor, muito forte.
- Então porque é que fizeste "ahh" (suspiro)?
- Não sei, filho. Fiz?
- Romântico é uma coisa do amor?
- Romântico é...
Hoje:
- O que é love, mãe?
- Love é amor.
- E all you need is love?
- Tudo o que precisamos é de amor.
- ...
Cinco anos, a pensar muito e a fazer pensar mais ainda.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

amanhã


- Hoje é sábado, não é?
- É.
- Então hoje é amanhã!
- ...
- Eu estou a fazer de conta que hoje é sexta-feira e ontem eu disse amanhã é sábado. E hoje é amanhã, não é?
- Parece que sim...
E aquela coisa da máquina de fazer passado torna-se ainda mais complicada. Porque, afinal, o presente também é uma máquina de (não?!) fazer futuro.
Sim, porque hoje é amanhã, está visto!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

logo


- Logo é agora, mãe?
- Não... logo é mais tarde...
- Mas tu à tarde disseste logo se vê. É agora?
- É... acho que sim...
- Logo é agora?
- Logo é agora. Sim.
O valter inventou a máquina de fazer espanhóis. O Oliveira (o Manoel de) dizia que o presente é uma máquina de fazer passado.
E nós talvez tenhamos descoberto que logo é uma espécie de agora adiado.
Isto do tempo tem muito que se lhe diga...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

bandidos e fantasmas

Carlos Drummond de Andrade

- Mãe, os bandidos não existem, pois não?
- Claro que existem! A maior parte está no governo...
- Mas os ladrões não existem, pois não?
- Esses geralmente vão para ministros das finanças...
- Mas aqui no Porto não há, pois não?
- A concentração é maior em Lisboa, mas também temos alguns jeitosos...
- Mas os fantasmas não existem!
- Os fantasmas não, só as avantesmas!
- O que é avantesmas?
- Uma espécie de fantasmas, umas coisas muito grandes.
- Mas não existem fantasmas... Não existem coisas estranparentes que andam...
- Pois, os fantasmas não, só mesmo as avantesmas...
(A palavra "avantesmas" aparece no libreto, de Carlos Tê, para uma ópera encomendada por Guimarães Capital da Cultura 2012 a um amigo meu compositor que a queria substituir por "fantasmas" antes de lanchar comigo. Depois do lanche as avantesmas ficaram lá e o telefonema de reclamação ao Tê foi adiado. Ele vai dedicar-me o compasso, mas espero que a minha alcunha não passe a ser Avantesma! Não há bela sem senão...)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

bomba2


Largada da segunda bomba, ontem no carro, a propósito de o meu bisavô ter sido preso.
- Foi por causa do filho da mãe do Salazar, sabias, mãe? - pergunta o V..
E o bombista:
- Eu sei uma palavra mais perigosa que filho da mãe...
- Qual é? - dispara o curioso.
- Filho da puta!
No comment...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

bomba1


Estamos na idade das palavras-bomba. Não só o F., mas sobretudo o F..
Ontem, uma vez mais, do fundo de uma caixa em que se enfiara com uns quantos dinossauros e um tacho de massa crua, lançou a bomba:
- Sexuais! O que é sexuais?
Fiz-me de lorpa, num sorriso cúmplice com o A., a quem massacrava com um ritmo na guitarra.
- Não sei...
- Não sabes?!
(Escandaloso, no mínimo.)
- Não, não sei... Tu sabes?
- Sei. Sexuais é namorados!
O sorriso cúmplice do A. transformou-se numa quase gargalhada muito silenciosa e discreta.
Ter cinco anos é, de facto, maravilhoso!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

o tempo


Afinal o tempo do relógio não é só uma escada rolante.
É, também, uma estafeta.
A F., a educadora do F., deu-lhe uma imagem absolutamente encantadora do tempo.
Ele explica assim:
- O tempo dá sessenta passinhos, o ponteiro dos minutos bate na mão das horas e ela dá um passinho. Assim, como na estafeta. E sabes, mãe, os relógios a sério têm três ponteiros... Mostra o teu! Não é a sério!!!
Afinal, não só somos postos na escada rolante do tempo, ao nascer, como nos desafiam para uma estafeta de vida.
Quem é que pode achar que a vida não é emocionante?

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

fantasmas


O F. sabe que os fantasmas não existem. Ou melhor, sabe que há coisas que existem porque acreditamos nelas e coisas que existem, simplesmente. Mais ou menos como o pai natal.
A casa da escolinha chama-se Casa dos Fantasmas e os ditos fantasmas fazem trinta por uma linha e convivem com os meninos através de cartas, surpresas, acontecimentos.
O F. sabe que os fantasmas não existem, mas esta noite acordou de um pesadelo e contou-me:
- Mãe, eu sei que os fantasmas não existem, mas no meu sonho existiam. Eu estava sozinho na escola e vinha um fantasma e levava-me.
- Foi só um sonho, F., já passou.
- Não foi um sonho, foi um pesadelo! E lá os fantasmas existiam!
Como dizia o outro: Yo no creo en las brujas, pero que las hay las hay!
Os fantasmas são da mesma raça...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

filhos de mãe


o filho de mil homens é um livro absolutamente espantoso!
daqueles casos em que não há dúvida de que há pessoas diferentes, mesmo homens, ainda que isso de ser diferente (não) seja só para as mulheres.
a capacidade de perscrutação da natureza humana de valter hugo mãe é infinita.
e só não surpreende que seja capaz de escrever tais coisas, porque é capaz de tantas outras coisas.
só um filho poderia escrever coisas assim.
e também assim!


derreti-me. sem mais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

cabelos


Não sei porquê, mas todas as crianças gostam de cortar os cabelos às bonecas.
Eu também o fiz, diversas vezes.
Às escondidas, claro!
Ontem, o F. pediu-me para cortar o cabelo à boneca que anda cá por casa há muitos anos.
Em vez de dizer que não, como fazem as mães, estive a ajudá-lo para que a pobre criatura não ficasse com uma crista, que era mesmo o que ele queria.
Não é melhor que eles façam estas coisas connosco do que às escondidas?
Claro que isto altera substancialmente a tradicional relação entre mães e filhos, mas não estará ela já bastante alterada?
se em alguns casos essas relações andam pelos cabelos, sejamos nós, então, os protagonistas da alteração, pelo menos!
Digo eu...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

pausa


Ele tem cinco anos e dezasseis dias, exactamente. Ontem menos um dia, portanto, e disse assim, enquanto lanchava:
- Vou fazer uma pausa no leite!
E parou de beber para comer bolachas.
Depois, perguntou ao irmão mais velho:
- Vais tocar guitarra eléctrica ou acústica?
A falar assim aos cinco anos ainda temos esperança de que o português se safe da barbárie dos acordos ortográficos e quejandos!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

nós em festa


Ou por outras palavras "wii party".
Há mais de um ano que o aparelho está cá em casa, mas só agora é que lhe damos verdadeiramente uso.
Até porque agora o F. também joga!
É absolutamente impressionante para uma criatura da minha idade, que nasceu virtualmente na idade da pedra, como uma criança de cinco anos pode dominar o mundo da tecnologia sem saber ler. O F. conhece todos os procedimentos necessários para começar, continuar, recuar, recomeçar, optar e concluir, não um, mas qualquer jogo.
Ele aprende exactamente como eu aprendi a fritar batatas com a minha avó: observando.
A  minha avó fazia as melhores batatas fritas do mundo. Cortadas num instrumento que eu também tenho, dispunha-as sobre um pano como quem prepara as cartas para uma paciência e depois secava-as, com outro pano, e recolhia-as, num baralho que ia deslizando para dentro da sertã.
É o mesmo que acertar com a mãozinha no sítio certo, carregar A, ou B para voltar para trás, seleccionar o Mii, o número de jogadores, o jogo e jogar.
E a vitória sabe a batatas fritas da minha avó! 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

interessante...

Ontem, comprei umas sapatilhas novas ao V.
Como brinde trazem umas rodinhas de pôr e tirar no calcanhar.
Uma festa!
O V. deu meia dúzia de trambolhões e depois decidiu deixar as rodas em casa. Mas a vaidade saiu com ele!
No carro, não hesita em obter a aprovação do F..
- Olha, F., tenho umas sapatilhas novas! E têm aqui esta tampa para pôr umas rodinhas!
O F., de cima dos seus enormes cinco anos, com um ar sério e pensativo:
- Interessante... interessante para cair...
E não descansou enquanto não viu o irmão a estender-se ao comprido.
O A. também se ria, mas quando chegou a vez dele, catrapumba.
Ainda tentaram que eu experimentasse, mas o juízo ainda me serve para alguma coisa!