Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

filhos de mãe


o filho de mil homens é um livro absolutamente espantoso!
daqueles casos em que não há dúvida de que há pessoas diferentes, mesmo homens, ainda que isso de ser diferente (não) seja só para as mulheres.
a capacidade de perscrutação da natureza humana de valter hugo mãe é infinita.
e só não surpreende que seja capaz de escrever tais coisas, porque é capaz de tantas outras coisas.
só um filho poderia escrever coisas assim.
e também assim!


derreti-me. sem mais.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

cabelos


Não sei porquê, mas todas as crianças gostam de cortar os cabelos às bonecas.
Eu também o fiz, diversas vezes.
Às escondidas, claro!
Ontem, o F. pediu-me para cortar o cabelo à boneca que anda cá por casa há muitos anos.
Em vez de dizer que não, como fazem as mães, estive a ajudá-lo para que a pobre criatura não ficasse com uma crista, que era mesmo o que ele queria.
Não é melhor que eles façam estas coisas connosco do que às escondidas?
Claro que isto altera substancialmente a tradicional relação entre mães e filhos, mas não estará ela já bastante alterada?
se em alguns casos essas relações andam pelos cabelos, sejamos nós, então, os protagonistas da alteração, pelo menos!
Digo eu...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

pausa


Ele tem cinco anos e dezasseis dias, exactamente. Ontem menos um dia, portanto, e disse assim, enquanto lanchava:
- Vou fazer uma pausa no leite!
E parou de beber para comer bolachas.
Depois, perguntou ao irmão mais velho:
- Vais tocar guitarra eléctrica ou acústica?
A falar assim aos cinco anos ainda temos esperança de que o português se safe da barbárie dos acordos ortográficos e quejandos!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

nós em festa


Ou por outras palavras "wii party".
Há mais de um ano que o aparelho está cá em casa, mas só agora é que lhe damos verdadeiramente uso.
Até porque agora o F. também joga!
É absolutamente impressionante para uma criatura da minha idade, que nasceu virtualmente na idade da pedra, como uma criança de cinco anos pode dominar o mundo da tecnologia sem saber ler. O F. conhece todos os procedimentos necessários para começar, continuar, recuar, recomeçar, optar e concluir, não um, mas qualquer jogo.
Ele aprende exactamente como eu aprendi a fritar batatas com a minha avó: observando.
A  minha avó fazia as melhores batatas fritas do mundo. Cortadas num instrumento que eu também tenho, dispunha-as sobre um pano como quem prepara as cartas para uma paciência e depois secava-as, com outro pano, e recolhia-as, num baralho que ia deslizando para dentro da sertã.
É o mesmo que acertar com a mãozinha no sítio certo, carregar A, ou B para voltar para trás, seleccionar o Mii, o número de jogadores, o jogo e jogar.
E a vitória sabe a batatas fritas da minha avó! 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

interessante...

Ontem, comprei umas sapatilhas novas ao V.
Como brinde trazem umas rodinhas de pôr e tirar no calcanhar.
Uma festa!
O V. deu meia dúzia de trambolhões e depois decidiu deixar as rodas em casa. Mas a vaidade saiu com ele!
No carro, não hesita em obter a aprovação do F..
- Olha, F., tenho umas sapatilhas novas! E têm aqui esta tampa para pôr umas rodinhas!
O F., de cima dos seus enormes cinco anos, com um ar sério e pensativo:
- Interessante... interessante para cair...
E não descansou enquanto não viu o irmão a estender-se ao comprido.
O A. também se ria, mas quando chegou a vez dele, catrapumba.
Ainda tentaram que eu experimentasse, mas o juízo ainda me serve para alguma coisa!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ler


Ler é uma das coisas boas da vida.
Sobretudo, quando é Manuel António Pina a escrever.
Ou a falar, neste caso.
A sua melancolia é contagiosamente um incentivo à felicidade, por incrível que pareça.
Mas a sua bondade é ainda melhor do que a sua poesia, é verdade.
A poesia é uma forma superior de bondade, digo eu.


Depois de M. A. Pina só mesmo uma boa história para adormecer.
Comecei a lê-la para os manos grandes. Eles cumpriram o objectivo, adormecer, e eu fiquei a ler o livro até ao fim.
Muito divertido!
O tio Rui é assim uma espécie de Manuel António Pina... de trazer por casa.
Imagino, agora, o seu bigode cheio de letras.
E a sua bondade a cair sobre nós, como poesia.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

TPCs


Primeira semana de aulas. Sem TPCs para o fim-de-semana.
O V. declara:
- Finalmente, os professores ganharam cérebro!
E eu que o diga! As Torturas Para Crianças (TPC) que os meus colegas prescrevem aos meus filhos deixam-me cabelos brancos de há três anos a esta parte.
Sim, porque o 1º ciclo está salvaguardado pelo bom senso da escolinha dos Gambozinos onde aprender é bom. Para os miúdos e para nós!

Julie & Julia


A descoberta de um mito da cozinha, para todos.
O filme é absolutamente extraordinário, sobretudo quando comparado com os programas originais "The French Chef"! (Também já tenho o livro na mesa de cabeceira! Ando sempre com uns anos de atraso, mas é de propósito. As coisas saboreiam-se melhor depois de voltarem para a cozinha. Digo eu...)
O primeiro projecto de 2012 do A. é escrever um livro de receitas... nada menos!
No sábado, fez magret de pato, ao jantar, em casa do pai, e a aventura começou. A primeira página já está pronta!
O meu A. (ainda child para todos os efeitos!) vai dar que falar...

sílabas à moda do Porto


O ano começou com uma gripe cá em casa e um filme por dia, para adquirir bons hábitos alimentares para alma. Faremos deste ano , dê lá por onde der, um ano ímpar na nossa vida!
O F. voltou à escola (lá tem de ser!) e logo, logo com novidades (está na fase esponjóide em que absorve tudo o que ouve aos meninos do 1º ano!).
- Como te chamas, mãe?
Despejei o meu nome completo.
- Não é isso! A E. é Maria E.. Com é o teu nome?
Lá despejei, com o respectivo Maria!
- Ma-ri-a-ê!Quatro síbalas!
Quatro síbalas! Que maravilha! E eu que pensava que as marias eram sempre três...
Sílabas à moda do Porto..., claro!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

natal





O A. passou os dois primeiros dias de férias a fazer com que o natal fosse mais doce.
A máquina de costura ajudou.
E o natal foi em grande. (e o blogger continua a rodar fotografias quando lhe dá na bolha!)

domingo, 11 de dezembro de 2011

entre o escuro, as sombras

Ontem, pela primeira vez nos cinco anos de experiência de vida do F., faltou a luz cá em casa durante perto de uma hora.
Já era de noite lá fora e o apagão foi geral.
Depois do medo, veio o fascínio de descobrir nas paredes as sombras que as muitas velas que espalhámos pela sala projectavam.
Tantos objectos que nos são familiares e de que não conhecíamos a sombra!
Mas o F. estava preocupado com os manos, que tinham ido ao cinema com os tios. E perante a hipótese do tio, que já tinha luz no prédio dele aqui mesmo em frente, de a nossa ser uma situação mais grave, não hesitou em desabafar:
- A nossa deve ser uma avariação mais estragada, mãe!
Enqunto ele falar assim eu vou gostar muito. Porque ter um Mia Couto em casa não é para todos... nem para sempre, infelizmente!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

a cozinha



O F. fez cinco anos e dei-lhe uma cozinha.
Não só a cozinha, mas tudo o resto em volta. Ou seja, o quarto novo todo só para ele, para poder brincar sem ter de arrumar caixotes antes de ir para a cama.
Foi bom! Foi muito bom!
Aliás, é sempre muito bom!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

a porta


Cá em casa não entra caixa de cartão que não viva uma experiência radical antes de ir para a reciclagem.
Depois do cavalo, que o F. serrrou em bocados no sábado, uma porta.
Claro que temos todos, até ele, de nos baixar para a atravessar.
Fica sempre aquela sensação de termos sido convertidos em gatos... mas não deixa de ser divertido!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

perguntas difíceis

Seis e meia da manhã. Entre uma caneca de leite e um biscoito, ainda no calorzinho do édredon, o F. dispara aquela que será, certamente, a primeira das inúmeras perguntas difíceis a que terei de responder no futuro:
- Mãe, o que é o tempo?
E não adianta fugir com o rabo à seringa:
- Qual tempo?
- Aquele que está dentro do relógio e tem aqueles tracinhos.
Bom, o tempo... o tempo, pensei com os meus botões, o tempo é assim uma espécie de escada rolante em que nos põem logo que nascemos e depois a nossa habilidade é subir ou descer quando nos dá mais jeito e, de vez em quando, deixarmo-nos levar sem nos mexermos.
Felizmente, o F. adormeceu enquanto eu pensava nesta resposta.
Para a próxima vou tê-la na ponta da língua!
Apanhei-o!

sábado, 5 de novembro de 2011

os piores momentos

Ter dez anos é assim como ser grande e pequenino ao mesmo tempo.
Mas, de repente, o grande torna-se grande, enorme, avassalador. Pela maturidade.
O V. contava-nos ontem que os seus dois piores momentos na escolinha, no 1º ciclo, tinham sido quando a J. lhe tinha amarrado os pés com uma corda (porque ele não parava de saltar!) e quando tinha sabido que a J. estava com cancro.
É desta maneira que os laços entre as pessoas se transformam em nós. Umas vezes nos pés, outras na garganta.
A junção destes dois momentos, na mesma pessoa, pareceu-me, a mim, inequívoca de que o V. está mesmo a crescer. Para não dizer mesmo crescido.
E é bom vê-los crescer assim. Bem.

sábado, 22 de outubro de 2011

a caixa táxi

O meu pai tem um amigo de infância, alemão, com quem mantém contacto desde sempre e, provavelmente, até sempre.
O G. é, para mim, que o conheço mais das narrativas do meu pai do que pessoalmente, mais que uma pessoa. É assim uma espécie de personagem da história da nossa família.
Durante o pós guerra, a mãe do G. tomava semanalmente chá com as amigas alemãs e, rotativamente, em casa de cada uma, havia também uma das senhoras que rotativamente oferecia uma caixa de bombons à anfitriã.
Um dia, chegou a vez da mãe do G. receber as amigas em sua casa e receber a dita caixa de bombons.
Mais tarde, a mãe do G. ganhou coragem e confessou a uma das amigas, em quem depositava maior confiança, que ao abrir a caixa verificara que os bombons estavam estragados, claramente muito para lá do prazo de validade e bom estado de conservação.
Exclamação da amiga:
- E tu abriste?
É que, ao que parece, a caixa circulava, de casa em casa, de mão em mão, sem nunca ser aberta.
Era uma caixa táxi, como lhe chamou o G.
É uma história bonita, não é?

domingo, 16 de outubro de 2011

caixas


As caixas servem para quase tudo.
E, como os gatos, têm sete vidas.
Estas começaram por acomodar os candeeiros novos cá de casa e, ainda antes de se acenderem as luzes, já estavam transformadas em cavalo.
A felicidade do cavaleiro fica escondida pela sua identidade secreta, mas posso assegurar que se sentia no mínimo um D. Quixote, pronto a enfrentar gigantes.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

guloseimas


Hoje é mais a propósito de aulas, mesmo.
Sobre a aula de hoje, do 6º ano, em que dei aos meus alunos uma guloseima.
O conhecimento é assim como a sopa, o conduto, arroz com massa e feijão, carne com batatas.
As curiosidades são as guloseimas do conhecimento.
E eles gostam, claro!
A propósito da luz e da cor, do preto e do branco e do que lhe anda pelo meio, acinzentando, falei de um dos livros que trago sempre comigo, no bolso da memória: A ilha sem cor, de Oliver Sacks.
Um bestseller, se eu fosse directora de marketing da minha profissão.
Meninos e meninas de onze anos a suplicarem que lhes contasse a história toda?
E o deficiente da turma a jurar que até ia descobrir no Google qual era a ilha?
Verdad!
Se a escola não está a dar é porque alguém se esqueceu das guloseimas.
Digo eu.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

em olhos


O F. está quase com cinco anos, mas tenho por hábito pegar-lhe ao colo quando o vou buscar à escolinha para podermos falar, sem que ele tenha de olhar para cima e eu para baixo.
Ontem, porque fui buscá-lo com o A., as coisas não foram assim e ao final da tarde, estendeu-me os braços e disse:
- Hoje ainda não falámos em olhos!
Ergui-o para o meu colo e de olhos nos olhos trocámos algumas palavras de afecto para depois nos atirarmos para cima da cama e jogarmos jogos com a boca.
É que depois de um dia de trabalho e calor já não dava mesmo para mexer mais nada. Só a boca e mal!

sábado, 1 de outubro de 2011

gays e vegetarianos


Aqui há uns seis meses atrás, numa conversa a caminho da escola, no banco de trás do meu carro, começou uma conversa muito preconceituosa em relação a pessoas com opções sexuais diferentes das nossas (das minhas, para já, neste caso!). A coisa já se vinha a arrastar há uns tempos e os manos mais velhos estavam a começar a passar a barreira do razoável e o mais pequeno estava em risco sério de contágio, aos quatro anos.
Resolvi cortar a direito e dizer-lhes que temos um amigo gay de quem eles gostam muitíssimo e que nem suspeitam das opções sexuais dele.
Quando proferi o nome dele, ouviu-se um PUM! sonoro no chassi do carro. Dois queixos tinham caído, de bocas escancaradas, que expiravam almas incrédulas perante a revelação.
Depois, recompuseram-se aos poucos, fazendo uma espécie de análise comportamental do estereótipo gay e do nosso amigo. E os preconceitos terminaram exactamente ali, naquele dia, naquele momento.
Agora, o V. o mais que faz é tentar perceber como é que se detecta e, de vez em quando, tenta comparações e interroga-me sobre a fiabilidade das suas percepções. Normalmente não acerta (até porque, tanto quanto sei, só temos um amigo gay!).
Mas o que é verdadeiramente extrordinário é que assumiu uma espécie de classificação de Lineu para os homossexuais e geralmente apresenta-a à mesa, no meio dos imprompérios contra a sopa de legumes:
- Ser gay é como ser vegetariano!
E depois desanca nos pais de uns colegas de escola que os obrigam a ser vegetarianos:
- É que o R. até gosta de peixe, mãe! ele já provou, mas os pais não o deixam comer!
Bom, um ponto de vista é sempre um ponto de vista e qualquer ponto de vista, pelo menos aos nove anos, é legítimo. Digo eu...