Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

domingo, 16 de outubro de 2011

caixas


As caixas servem para quase tudo.
E, como os gatos, têm sete vidas.
Estas começaram por acomodar os candeeiros novos cá de casa e, ainda antes de se acenderem as luzes, já estavam transformadas em cavalo.
A felicidade do cavaleiro fica escondida pela sua identidade secreta, mas posso assegurar que se sentia no mínimo um D. Quixote, pronto a enfrentar gigantes.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

guloseimas


Hoje é mais a propósito de aulas, mesmo.
Sobre a aula de hoje, do 6º ano, em que dei aos meus alunos uma guloseima.
O conhecimento é assim como a sopa, o conduto, arroz com massa e feijão, carne com batatas.
As curiosidades são as guloseimas do conhecimento.
E eles gostam, claro!
A propósito da luz e da cor, do preto e do branco e do que lhe anda pelo meio, acinzentando, falei de um dos livros que trago sempre comigo, no bolso da memória: A ilha sem cor, de Oliver Sacks.
Um bestseller, se eu fosse directora de marketing da minha profissão.
Meninos e meninas de onze anos a suplicarem que lhes contasse a história toda?
E o deficiente da turma a jurar que até ia descobrir no Google qual era a ilha?
Verdad!
Se a escola não está a dar é porque alguém se esqueceu das guloseimas.
Digo eu.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

em olhos


O F. está quase com cinco anos, mas tenho por hábito pegar-lhe ao colo quando o vou buscar à escolinha para podermos falar, sem que ele tenha de olhar para cima e eu para baixo.
Ontem, porque fui buscá-lo com o A., as coisas não foram assim e ao final da tarde, estendeu-me os braços e disse:
- Hoje ainda não falámos em olhos!
Ergui-o para o meu colo e de olhos nos olhos trocámos algumas palavras de afecto para depois nos atirarmos para cima da cama e jogarmos jogos com a boca.
É que depois de um dia de trabalho e calor já não dava mesmo para mexer mais nada. Só a boca e mal!

sábado, 1 de outubro de 2011

gays e vegetarianos


Aqui há uns seis meses atrás, numa conversa a caminho da escola, no banco de trás do meu carro, começou uma conversa muito preconceituosa em relação a pessoas com opções sexuais diferentes das nossas (das minhas, para já, neste caso!). A coisa já se vinha a arrastar há uns tempos e os manos mais velhos estavam a começar a passar a barreira do razoável e o mais pequeno estava em risco sério de contágio, aos quatro anos.
Resolvi cortar a direito e dizer-lhes que temos um amigo gay de quem eles gostam muitíssimo e que nem suspeitam das opções sexuais dele.
Quando proferi o nome dele, ouviu-se um PUM! sonoro no chassi do carro. Dois queixos tinham caído, de bocas escancaradas, que expiravam almas incrédulas perante a revelação.
Depois, recompuseram-se aos poucos, fazendo uma espécie de análise comportamental do estereótipo gay e do nosso amigo. E os preconceitos terminaram exactamente ali, naquele dia, naquele momento.
Agora, o V. o mais que faz é tentar perceber como é que se detecta e, de vez em quando, tenta comparações e interroga-me sobre a fiabilidade das suas percepções. Normalmente não acerta (até porque, tanto quanto sei, só temos um amigo gay!).
Mas o que é verdadeiramente extrordinário é que assumiu uma espécie de classificação de Lineu para os homossexuais e geralmente apresenta-a à mesa, no meio dos imprompérios contra a sopa de legumes:
- Ser gay é como ser vegetariano!
E depois desanca nos pais de uns colegas de escola que os obrigam a ser vegetarianos:
- É que o R. até gosta de peixe, mãe! ele já provou, mas os pais não o deixam comer!
Bom, um ponto de vista é sempre um ponto de vista e qualquer ponto de vista, pelo menos aos nove anos, é legítimo. Digo eu...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

depilação higiénica


Não sei como é nas casas com meninas, mas aqui os meus rapazes sempre souberam de tudo.
O A. fez várias vezes instalações dignas de prémios internacionais com pensos higiénicos e o V. nunca se obstou de comentar o meu bigode de creme descolorante.
Ontem, o F. também se revelou já completamente ao nível das práticas femininas, com grande astúcia.
Sentando no balcão da casa de banho, tirou a proteção de um penso higiénico diário carefree (passe a publicidade) e aplicou-o sobre a canela, de cima para baixo como mandam as instruções (não dos pensos, claro!):
- Posso tirar os pêlos, mãe?
Claro, pois então? Haverá método mais higiénico?
E num gesto eficaz e quase profissional, arrancou com rapidez o dito penso, de baixo para cima, como manda a lei, estampando-se-lhe um sorriso na cara.
Apesar de tudo, a semelhança entre uma banda de cera depilatória e um penso higiénico não é pura coincidência!

sábado, 17 de setembro de 2011

humor em 180º

Que o sentido de humor é uma forma superior de inteligência é um lugar comum.
Mas que aos quatro anos o F. ponha o irmão de doze de rastos com uma piada subtil, deixou-me a pensar.
Foi assim: o F. desenhou o A. a saltar de um prédio e chamou-o:
- A., olha que forte tu, a saltares de um prédio!


O A., que se derrete com estas coisas queridas do irmão pequenino, ficou feliz. Só que o F. não se ficou por ali.
Rodou o desenho 180º graus e declarou:
- Viste? Caíste de cabeça no chão!


O A. ficou tão triste que me veio contar isto com a dor de quem é gozado por pouco mais de um metro de pessoa.
Eu, por mim, derreti-me. Pelos dois.

domingo, 11 de setembro de 2011

suspiros


A equipa dos pequeninos, na escolinha, mudou. E , a nós, adultos, este tipo de mudanças custa-nos, invariavelmente
Mas como o F. já sabe e gosta de cantar como o Zé Mário (Branco)
E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas qu'inda o dia é uma criança
Os miúdos são mil vezes mais plásticos do que nós, adultos empedrenidos, e resumiu a mudança numa única frase que disse à C., professora do 1º ano, com quem tem uma muito especial empatia.
- C,. eu gosto muito de ti, mas pela E. suspiro!
E é verdade, ou não o tivéssemos, eu e os manos, ouvido suspirar ao ver a E. a atravessar a rua, nesse mesmo dia, pela manhã!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

pensando melhor...


... prefiro os rapazes!
Domingo passámos a tarde em casa de uns tios para os manos conhecerem aqueles primos que já sabem que existem mas com quem nunca se encontraram.
Foi uma tarde inesquecível!
A M., que tem 3 anos mas o mesmo metro de comprimento que o F., está naquela fase obsessiva das princesas. Com um par de sapatos às bolinhas da avó não descansou enquanto não brinquei com ela à Cinderela. Sim, porque o F. não se mete nessas coisas!!!
Aliás, fez questão de deixar claro que não gostava dela, que a achava feiosa e que não estava mesmo para aturar meninas.
Só conseguimos que brincassem juntos na relva, com uma bola, o que valeu ao F. uma placagem daquelas de o deixar imobilizado no chão a reclamar para si próprio "Esta gaja!" (pois é, com quatro anos já fala assim, nada a fazer!) e, depois, com a avó às escondidas porque se meteram todos no guarda-vestido e, claro, foi uma festa.
Ah, e mesmo na hora de ir embora, pintaram juntos uma pobre boneca que ficou com ar de zombie. Mas foi mais o gozo da borradela do que interacção entre os dois!
A M. é um verdadeiro postal ilustrado, mas devo ser eu que já estou demasiado habituada a rapazes, porque... a verdade é que me aborreci um bocadinho por ter de brincar à Cinderela!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

deixem-me brincar com meninas!


Cobras...
Cobras em frascos com álcool.
Cobras dissecadas, com a pele esticada com alfinetes, ao sol, a secar.
Cobras em frasco, sem álcool, com nome, fofinhas, dizem eles, no colo, à noite, na cama, a tampa um bocadinho aberta para entrar ar.
Cobras em terrários improvisados (obrigada, Hugo!).
Cobras...
Os manos (até o F.!) e o nosso grande pequeno amigo M. divertiram-se muito, nestes últimos dias de férias.
Mas eu...
Eu estou a precisar muito muito de brincar com meninas!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

os manos


Os manos voltaram! E o F. recebeu-os com abraços, beijos e uma defensiva estratégica contra quaiquer ataques adultos.
Foi bonito vê-los, dois a dois, a reencontrarem-se nos mimos, nas cumplicidades, nas brincadeiras... na brigas, nos ciúmes...
Enfim, bonito mesmo foi ver como apesar do F. declarar de cima dos seus quatro anos que estava no bem bom sem ter que aturar os manos afinal sentia tantas saudades deles.
Bonito mesmo foi voltar o barulho, a confusão e, finalmente, a paz, quando os três adormecem.
Como dizia o N. numa velha crónica de Pai Galinha, há qualquer coisa de profundamente qualquer coisa no modo como olhamos para os nossos filhos e achamos que eles são lindos quando dormem: é que a tranquilidade do seu sono é o garante final da nossa tranquilidade!

domingo, 21 de agosto de 2011

sombreanas


No mimo do amanhecer lento, o F. percorre-me infinitas vezes o rosto como quem desenha.
O seu indicador pequenino traça-me um sobrancelha. Depois a outra.
- Tens duas sombreanas...
Pois tenho. Sombreanas são assim uma espécie de sobrancelhas e pestanas, ou então simplesmente os traços que o meu filho me faz sobre os olhos para mos proteger da poeira visível aos primeiros raios de sol de mais um dia de férias.
É nestas intimidades que se apertam os laços entre nós.
Enquanto os irmãos lançam amarras noutros portos de afecto.
Obrigada, tios!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

o tempo imenso


As férias são este momento em que o tempo é imenso. Imenso para tudo, até para uma ida aos correios.
Da primeira vez, há uma semana atrás, o F., do meu colo, quando ouviu a D. Helena (chefe e funcionária única da estação de correios de Moledo) dar uma pancada vigorosa numa carta que acabara de lhe ser entregue, declarou, com ar de espanto:
- Mãe, ela tem um martelo!
Não era um martelo. Era o carimbo que, não sei por que razão, de facto, nas estações de correios e repartições públicas várias, as pessoas arremessam como martelos sobre os nossos documentos ou sobrescritos.
Começou aí o jogo de sedução entre o F. e a D. Helena. Ela achou-lhe graça. Ele achou-a... fascinante, provavelmente.
Hoje, numa nova visita, o F. e a D. Helena não só conversaram imenso, (o F. deitado sobre o balcão com a cabeça enfiada na secretária) como o F. colou o registo na minha correspondência, arrumou moedas, desformatou o computador (não foi exactamente desformatar, mas quase!) e aceitou o convite retórico da D. Helena para ficar a trabalhar com ela.
O s correios, as cartas, os selos, os envelopes, os carimbos e, finalmente, aquele pum! no fundo do marco continuam revestidos da mesma aura de mistério e fascínio que sempre tiveram. A literatura nunca vai esquecer-se deles. Eu e o F. também não. Pelo menos, enquanto houver férias. Isto é, enquanto houver um tempo imenso para saborear as coisas boas da vida.

sábado, 6 de agosto de 2011

traças


De manhã, ainda entre o fresquinho do édredon, o F. examina os arranhões no meu nariz, que uma falhada tentativa de atravessar uma porta de vidro me provocou.
- Tens três arranhões, mãe!
E depois continua a prospecção epidérmica:
- E aqui tens buracos... deves ter traças!
Traças?!!!!
Lá que o tempo vai passando por mim, tudo bem, já me conformei, agora traças?
Será que há cremes anti-traça, para mulheres felizes como eu?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

férias


O primeiro dia de férias sabe bem. Mesmo ainda na cidade.
O calor recua para nos deixar passar e eu e o F. brincamos o dia inteiro.
Cavaleiros e feiras medievais, de manhã. Pintura, antes do almoço.
Restaurantes, com o café. Legos, ao lanche. Desenhos, com o sono a puxar o corpo para o sofá
E um pouco de desenhos animados para terminar.
Fazem-nos falta os manos. Ao F. para jogar aqueles jogos na televisão em que já lhes ganhou.
A mim para serem mais dois a mimarem-me!
O silêncio nem sempre é de ouro...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ainda as cores


O F. está a fazer desenhos e vai rebolando entre o balde dos lápis e o papel.
Com dois lápis sobre a barriga, pergunta:
- Qual é mais escuro, mãe, o preto ou o azul escuro?
- Talvez o preto...
- Mas o azul escuro também é muito escuro, não é?
- Sim...
- Mais escuro do que o preto...
- Talvez..
- São os dois escuros, não é?
- Sim...
- Os dois escondem...
Vira-se e começa a pintar com o lápis preto sobre uma parte vermelha do desenho feito.
- Vês? Esconde...
A seguir faz o mesmo com o lápis azul escuro sobre outra parte do desenho.
- Este também esconde...
Pois, dir-se-ia que são cores esconditivas!

domingo, 10 de julho de 2011

cor de pele


Quando os alunos me pedem para os ensinar a fazer cor de pele para pintar, costumo perguntar:
- Pele de quem?
O F. hoje de manhã, nos miminhos dos lençóis, colocou a questão com a perspicácia que o vem caracterizando nos últimos tempos:
- Mãe, de que cor é a nossa pele? Não é branca, pois não?
- Não. Branca não.
- É estranparente? Cinzenta?
- Transparente e cinzenta... acho que também não...
- Então de que cor é?
- É... uma cor assim esquisita... tipo cor de burro quando foge.
O F. ri-se.
- Nós dizemos que somos brancos mas não somos, F.. A T. também não é preta, é castanha.
- Mas o pai da Tita é preto!
- Isso é verdade... mas nem todos os pretos são pretos. Nós também não somos brancos.
A propóstio, de que cor somos nós, os brancos? Cor de rosa, como no novo acordo ortográfico? Ou cor de laranja? E porque não cor de porco ou cor de tangerina? Assim como assim, vamos ficar de uma cor sem hífen... Como a couve flor!

sábado, 9 de julho de 2011

do outro lado do espelho


O F. passou ontem para o outro lado do espelho.
Antes de ir par a cama, olhou para as nossas imagens no espelho da casa de banho e perguntou:
- Nós vemos ela. E ela vê a nós?
- A imagem do espelho?
- Sim, ela vê-nos?
- Não sei.. acho que não... (a idade estraga-nos o cérebro, decididamente)
- Vê, vê. Ela vê-te. Olha. Vês está a olhar para ti!
- Pois vê! Claro que vê!
- Claro!
Ainda bem que ele conseguiu que eu passasse também para o lado de lá.
Estou mesmo a precisar de voltar a praticar e recomeçar a pensar seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço, todos os dias!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

o sítio das coisas selvagens


Quando esteve no cinema, não conseguimos ir ver o filme. Sou sempre muito lenta a decidir-me em entrar num shopping para ver cinema (mas tenho sido capaz de acelerar bastante nos últimos tempos!).
Há dias, não resiti a comprar o DVD. E ainda bem.
Ao contrário da minha doce E., não fiquei nada decepcionada. Pelo contrrário. Apaixonei-me pelo Max, pelo Carol, pela KW e por todos os outros. (O Tim Burton não conseguiu isso com a Alice!)
O F. já viu o filme três. Os manos também. Só eu ainda não consegui ver-lhe o fim.
Mas um dia destes, quando eles já estiverem os três a murmurar sonhos, vou pôr sentar-me no sofá e ver o filme do princípio ao fim. Como se fosse no cinema!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

o meu pai


Nem sempre a vida dos casais corre como se desejou, como se planeou, como se sonhou.
O importante é haver sentimentos fortes entre duas pessoas que geraram, neste caso, outras três pessoas.
O fundamental é as duas pessoas estarem eternamente unidas no bem-estar e na felicidade das outras três pessoas.
É por isso que a única coisa que conta é eles continuarem a dizer, agora e sempre:
- O MEU PAI É ÓPTIMO!
E não deixarem de ter um Pê de Pai, dê por onde der.

terça-feira, 5 de julho de 2011

os "meninos"


Os manos, nome por que são conhecidos cá em casa o F. e o V., voltaram a juntar-se no quarto onde moraram até o F. precisar de sair do quarto dos pais.
Quando o A. passou para o 2º Ciclo, o quarto de brinquedos, depois escritorinho, como eles gostavam de lhe chamar, passou a ser o quarto do A., o grande, e o V. passou a partilhar o quarto com o F.
Agora que o F. fica nos Gambozinos e os manos se juntam na escola básica/secundária, o F. ganhou direito a um quarto só para ele.
O fim-de-semana foi simplesmente alucinante, com as mudanças. Não porque os meus filhos tenham muita roupa ou muitos brinquedos, mas porque têm uma gigantesca biblioteca!
Mas, hoje é terça-feira e já só há uns restos de tralha para arrumar. Eles ajudaram imenso!
Desde sábado (dia em que dormiram a primeira noite nos quartos novos), coincidência ou não, o F. trata os manos, não por manos ou irmãos, como era seu costume, mas por meninos.
Anteontem, por exemplo, chegou a casa, vindo de casa dos avós, com uma garrafinha termos na mão e disparou, ainda do átrio:
- Meninos, meninos, vocês vão ficar furiosos! A avó deu-me uma garrafa que a água fica fria! É só para mim, não é para vocês, meninos!
O A. e o V. não sabem se hão-de rir ou de chorar...
- Francamente, mãe, chamar-nos meninos!