Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

domingo, 11 de setembro de 2011

suspiros


A equipa dos pequeninos, na escolinha, mudou. E , a nós, adultos, este tipo de mudanças custa-nos, invariavelmente
Mas como o F. já sabe e gosta de cantar como o Zé Mário (Branco)
E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas qu'inda o dia é uma criança
Os miúdos são mil vezes mais plásticos do que nós, adultos empedrenidos, e resumiu a mudança numa única frase que disse à C., professora do 1º ano, com quem tem uma muito especial empatia.
- C,. eu gosto muito de ti, mas pela E. suspiro!
E é verdade, ou não o tivéssemos, eu e os manos, ouvido suspirar ao ver a E. a atravessar a rua, nesse mesmo dia, pela manhã!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

pensando melhor...


... prefiro os rapazes!
Domingo passámos a tarde em casa de uns tios para os manos conhecerem aqueles primos que já sabem que existem mas com quem nunca se encontraram.
Foi uma tarde inesquecível!
A M., que tem 3 anos mas o mesmo metro de comprimento que o F., está naquela fase obsessiva das princesas. Com um par de sapatos às bolinhas da avó não descansou enquanto não brinquei com ela à Cinderela. Sim, porque o F. não se mete nessas coisas!!!
Aliás, fez questão de deixar claro que não gostava dela, que a achava feiosa e que não estava mesmo para aturar meninas.
Só conseguimos que brincassem juntos na relva, com uma bola, o que valeu ao F. uma placagem daquelas de o deixar imobilizado no chão a reclamar para si próprio "Esta gaja!" (pois é, com quatro anos já fala assim, nada a fazer!) e, depois, com a avó às escondidas porque se meteram todos no guarda-vestido e, claro, foi uma festa.
Ah, e mesmo na hora de ir embora, pintaram juntos uma pobre boneca que ficou com ar de zombie. Mas foi mais o gozo da borradela do que interacção entre os dois!
A M. é um verdadeiro postal ilustrado, mas devo ser eu que já estou demasiado habituada a rapazes, porque... a verdade é que me aborreci um bocadinho por ter de brincar à Cinderela!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

deixem-me brincar com meninas!


Cobras...
Cobras em frascos com álcool.
Cobras dissecadas, com a pele esticada com alfinetes, ao sol, a secar.
Cobras em frasco, sem álcool, com nome, fofinhas, dizem eles, no colo, à noite, na cama, a tampa um bocadinho aberta para entrar ar.
Cobras em terrários improvisados (obrigada, Hugo!).
Cobras...
Os manos (até o F.!) e o nosso grande pequeno amigo M. divertiram-se muito, nestes últimos dias de férias.
Mas eu...
Eu estou a precisar muito muito de brincar com meninas!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

os manos


Os manos voltaram! E o F. recebeu-os com abraços, beijos e uma defensiva estratégica contra quaiquer ataques adultos.
Foi bonito vê-los, dois a dois, a reencontrarem-se nos mimos, nas cumplicidades, nas brincadeiras... na brigas, nos ciúmes...
Enfim, bonito mesmo foi ver como apesar do F. declarar de cima dos seus quatro anos que estava no bem bom sem ter que aturar os manos afinal sentia tantas saudades deles.
Bonito mesmo foi voltar o barulho, a confusão e, finalmente, a paz, quando os três adormecem.
Como dizia o N. numa velha crónica de Pai Galinha, há qualquer coisa de profundamente qualquer coisa no modo como olhamos para os nossos filhos e achamos que eles são lindos quando dormem: é que a tranquilidade do seu sono é o garante final da nossa tranquilidade!

domingo, 21 de agosto de 2011

sombreanas


No mimo do amanhecer lento, o F. percorre-me infinitas vezes o rosto como quem desenha.
O seu indicador pequenino traça-me um sobrancelha. Depois a outra.
- Tens duas sombreanas...
Pois tenho. Sombreanas são assim uma espécie de sobrancelhas e pestanas, ou então simplesmente os traços que o meu filho me faz sobre os olhos para mos proteger da poeira visível aos primeiros raios de sol de mais um dia de férias.
É nestas intimidades que se apertam os laços entre nós.
Enquanto os irmãos lançam amarras noutros portos de afecto.
Obrigada, tios!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

o tempo imenso


As férias são este momento em que o tempo é imenso. Imenso para tudo, até para uma ida aos correios.
Da primeira vez, há uma semana atrás, o F., do meu colo, quando ouviu a D. Helena (chefe e funcionária única da estação de correios de Moledo) dar uma pancada vigorosa numa carta que acabara de lhe ser entregue, declarou, com ar de espanto:
- Mãe, ela tem um martelo!
Não era um martelo. Era o carimbo que, não sei por que razão, de facto, nas estações de correios e repartições públicas várias, as pessoas arremessam como martelos sobre os nossos documentos ou sobrescritos.
Começou aí o jogo de sedução entre o F. e a D. Helena. Ela achou-lhe graça. Ele achou-a... fascinante, provavelmente.
Hoje, numa nova visita, o F. e a D. Helena não só conversaram imenso, (o F. deitado sobre o balcão com a cabeça enfiada na secretária) como o F. colou o registo na minha correspondência, arrumou moedas, desformatou o computador (não foi exactamente desformatar, mas quase!) e aceitou o convite retórico da D. Helena para ficar a trabalhar com ela.
O s correios, as cartas, os selos, os envelopes, os carimbos e, finalmente, aquele pum! no fundo do marco continuam revestidos da mesma aura de mistério e fascínio que sempre tiveram. A literatura nunca vai esquecer-se deles. Eu e o F. também não. Pelo menos, enquanto houver férias. Isto é, enquanto houver um tempo imenso para saborear as coisas boas da vida.

sábado, 6 de agosto de 2011

traças


De manhã, ainda entre o fresquinho do édredon, o F. examina os arranhões no meu nariz, que uma falhada tentativa de atravessar uma porta de vidro me provocou.
- Tens três arranhões, mãe!
E depois continua a prospecção epidérmica:
- E aqui tens buracos... deves ter traças!
Traças?!!!!
Lá que o tempo vai passando por mim, tudo bem, já me conformei, agora traças?
Será que há cremes anti-traça, para mulheres felizes como eu?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

férias


O primeiro dia de férias sabe bem. Mesmo ainda na cidade.
O calor recua para nos deixar passar e eu e o F. brincamos o dia inteiro.
Cavaleiros e feiras medievais, de manhã. Pintura, antes do almoço.
Restaurantes, com o café. Legos, ao lanche. Desenhos, com o sono a puxar o corpo para o sofá
E um pouco de desenhos animados para terminar.
Fazem-nos falta os manos. Ao F. para jogar aqueles jogos na televisão em que já lhes ganhou.
A mim para serem mais dois a mimarem-me!
O silêncio nem sempre é de ouro...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ainda as cores


O F. está a fazer desenhos e vai rebolando entre o balde dos lápis e o papel.
Com dois lápis sobre a barriga, pergunta:
- Qual é mais escuro, mãe, o preto ou o azul escuro?
- Talvez o preto...
- Mas o azul escuro também é muito escuro, não é?
- Sim...
- Mais escuro do que o preto...
- Talvez..
- São os dois escuros, não é?
- Sim...
- Os dois escondem...
Vira-se e começa a pintar com o lápis preto sobre uma parte vermelha do desenho feito.
- Vês? Esconde...
A seguir faz o mesmo com o lápis azul escuro sobre outra parte do desenho.
- Este também esconde...
Pois, dir-se-ia que são cores esconditivas!

domingo, 10 de julho de 2011

cor de pele


Quando os alunos me pedem para os ensinar a fazer cor de pele para pintar, costumo perguntar:
- Pele de quem?
O F. hoje de manhã, nos miminhos dos lençóis, colocou a questão com a perspicácia que o vem caracterizando nos últimos tempos:
- Mãe, de que cor é a nossa pele? Não é branca, pois não?
- Não. Branca não.
- É estranparente? Cinzenta?
- Transparente e cinzenta... acho que também não...
- Então de que cor é?
- É... uma cor assim esquisita... tipo cor de burro quando foge.
O F. ri-se.
- Nós dizemos que somos brancos mas não somos, F.. A T. também não é preta, é castanha.
- Mas o pai da Tita é preto!
- Isso é verdade... mas nem todos os pretos são pretos. Nós também não somos brancos.
A propóstio, de que cor somos nós, os brancos? Cor de rosa, como no novo acordo ortográfico? Ou cor de laranja? E porque não cor de porco ou cor de tangerina? Assim como assim, vamos ficar de uma cor sem hífen... Como a couve flor!

sábado, 9 de julho de 2011

do outro lado do espelho


O F. passou ontem para o outro lado do espelho.
Antes de ir par a cama, olhou para as nossas imagens no espelho da casa de banho e perguntou:
- Nós vemos ela. E ela vê a nós?
- A imagem do espelho?
- Sim, ela vê-nos?
- Não sei.. acho que não... (a idade estraga-nos o cérebro, decididamente)
- Vê, vê. Ela vê-te. Olha. Vês está a olhar para ti!
- Pois vê! Claro que vê!
- Claro!
Ainda bem que ele conseguiu que eu passasse também para o lado de lá.
Estou mesmo a precisar de voltar a praticar e recomeçar a pensar seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço, todos os dias!

sexta-feira, 8 de julho de 2011

o sítio das coisas selvagens


Quando esteve no cinema, não conseguimos ir ver o filme. Sou sempre muito lenta a decidir-me em entrar num shopping para ver cinema (mas tenho sido capaz de acelerar bastante nos últimos tempos!).
Há dias, não resiti a comprar o DVD. E ainda bem.
Ao contrário da minha doce E., não fiquei nada decepcionada. Pelo contrrário. Apaixonei-me pelo Max, pelo Carol, pela KW e por todos os outros. (O Tim Burton não conseguiu isso com a Alice!)
O F. já viu o filme três. Os manos também. Só eu ainda não consegui ver-lhe o fim.
Mas um dia destes, quando eles já estiverem os três a murmurar sonhos, vou pôr sentar-me no sofá e ver o filme do princípio ao fim. Como se fosse no cinema!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

o meu pai


Nem sempre a vida dos casais corre como se desejou, como se planeou, como se sonhou.
O importante é haver sentimentos fortes entre duas pessoas que geraram, neste caso, outras três pessoas.
O fundamental é as duas pessoas estarem eternamente unidas no bem-estar e na felicidade das outras três pessoas.
É por isso que a única coisa que conta é eles continuarem a dizer, agora e sempre:
- O MEU PAI É ÓPTIMO!
E não deixarem de ter um Pê de Pai, dê por onde der.

terça-feira, 5 de julho de 2011

os "meninos"


Os manos, nome por que são conhecidos cá em casa o F. e o V., voltaram a juntar-se no quarto onde moraram até o F. precisar de sair do quarto dos pais.
Quando o A. passou para o 2º Ciclo, o quarto de brinquedos, depois escritorinho, como eles gostavam de lhe chamar, passou a ser o quarto do A., o grande, e o V. passou a partilhar o quarto com o F.
Agora que o F. fica nos Gambozinos e os manos se juntam na escola básica/secundária, o F. ganhou direito a um quarto só para ele.
O fim-de-semana foi simplesmente alucinante, com as mudanças. Não porque os meus filhos tenham muita roupa ou muitos brinquedos, mas porque têm uma gigantesca biblioteca!
Mas, hoje é terça-feira e já só há uns restos de tralha para arrumar. Eles ajudaram imenso!
Desde sábado (dia em que dormiram a primeira noite nos quartos novos), coincidência ou não, o F. trata os manos, não por manos ou irmãos, como era seu costume, mas por meninos.
Anteontem, por exemplo, chegou a casa, vindo de casa dos avós, com uma garrafinha termos na mão e disparou, ainda do átrio:
- Meninos, meninos, vocês vão ficar furiosos! A avó deu-me uma garrafa que a água fica fria! É só para mim, não é para vocês, meninos!
O A. e o V. não sabem se hão-de rir ou de chorar...
- Francamente, mãe, chamar-nos meninos!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

a flauta mágica


Comecei a tocar piano aos sete, flauta de bisel aos dez e flauta transversal aos doze.
Aos dezassete estudava quatro horas por dia, lia as partituras todas que encontrava, acompanhava os discos todos que comprava.
Depois entrei para o ensino superior, depois comecei a dar aulas, depois apaixonei-me e daí para a frente a flauta passou a ser aquilo que eu deveria ter continuado a estudar mas nunca tinha tempo.
Finalmente, agora, com três filhos, tenho tempo para aprender a tocar. Não para ler partituras, para acompanhar discos, mas para aprender a tocar como gente grande.
O meu professor é dezassete anos mais novo que eu e, pelo menos, dezassete anos mais sábio que eu na arte de fazer música com um tubo metálico cheio de buracos e tampas.
Ontem estivemos uma hora e meia a jogar o jogo que ele me tenta ensinar há mais de nove meses: chama-se "onde está o diafragma" (que é assim uma espécie da caça aos gambozinos!). É um jogo muito difícil de jogar. Para mim, que cada vez mais me convenço de que me tiraram o diafragma numa das três cesarianas que me fizeram, e, para ele, que não percebe como é possível viver sem uma membrana vital (vital para um flautista, entenda-se!).
Em nove meses ainda não consegui encontrar o meu diafragma, mas decididamente encontrei o mais persistente caçador de diafragmas do mundo!
E ainda por cima toca como Rampal, Galway e Fromanger todos juntos (além dos outros, claro!) .
É caso para dizer: ele há gajos do caraças!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

a reversibilidade do tempo


O F. já não diz amanhã fui, mas a reversibilidade do tempo ainda é uma possibilidade real.
Além de me prometer sucessivamente que depois de fazer 5 anos vai voltar a ser bebé, porque quer muito voltar a ser bebé, o F. tem um tempo mental (e provavelmente emocional) muito diferente do nosso (e que sorte a dele!).
Ontem, foi cortar o cabelo. O F. adora cortar o cabelo e é um gozo vê-lo a olhar-se no espelho enquanto a tesoura faz tchc, tchc.
Hoje de manhã, enquanto ainda se ouvia o chhhhh do chichi da noite a escorregar na sanita, perguntou-me:
- Ainda estou com o cabelo cortado?
Claro!
- Deixa ver...
Com uma mão enfiou a pilinha dentro dos calções do pijama, trepou para cima da tampa da sanita, fechada já com a outra mão, e olhou-se no espelho:
- G'anda cena!!!
O tempo é, de facto, uma coisa extraordinária,
Ou, como ele próprio diria, uma g'anda cena!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

pina


Ontem fui ao cinema.
E durante 103 minutos deixei-me invadir pela densidade das imagens.
O meu corpo estremeceu por diversas vezes e, tal como os corpos na tela, senti que as emoções nos percorrem da ponta dos dedos das mãos à ponta dos dedos dos pés.
Fiquei com a pergunta de Pina a latejar no corpo. E ando, desde ontem, à procura da resposta.
O que anseio eu?
E a única resposta que encontro em mim é: dançar.
Dançar a dança da vida, em todas as idades.
Na Primavera, no Verão, no Outono, no Inverno.
Todos os dias.
Dançar.
Até que do corpo só me reste a essência.

domingo, 5 de junho de 2011

do sentido e das palavras


O F. começou a aprender na escolinha a canção que a Suzana e a Regina escreveram para a época.
Só que as palavras têm que ganhar sentido quando são cantadas e por isso o F. canta assim:

"Santos que estais no Algarve,
Cuidai das vossas ovelhas
Das novas porque são novas
das velhas porque são velhas"

E por aí fora.
Claro que mesmo a Regina que é capaz de muita coisa, não se lembrou de pôr os santos no Algarve.
mas por mais que expliquemos ao F. o que é o altar ele continua na dele e lá manda as santidades para o reino dos Algarves. Faz sentido!
Reconhe Pedro, o mais sisudo, António, o casamenteiro, e João, menino que é pastor, mas adiante para os Algarves.
E siga a rusga!

sábado, 28 de maio de 2011

o primeiro gomo da tangerina


Quando se tem três filhos, o primeiro gomo da tangerina acontece infinitas vezes.
As tangerinas são tantas, os gomos infindáveis, e os gestos sempre sábios.
O v. foi ontem, pela primeira vez, à casa da música ver/ouvir a orquestra sinfónica tocar mozart.
O a. foi pela segunda vez (ainda que a primeira se lhe tenha diluído na memória) ver/ouvir os stomp no coliseu.
O f. ficou em casa, pela primeira vez (porque nisto é sempre a primeira vez!), com a mãe só para ele.
Eu comecei a ler caim (como se nota pela ausência de maiúsculas).
E o pai foi para a cama, muito muito cedo, pela primeira vez com a alma cheia de nós.
Porque na noite anterior tivemos uma longa e profunda conversa a cinco (sim que o f. também ouve, embora nem sempre fale) sobre a vida, a morte, os pontos de vista e experiências pessoais.
Os manos ficaram a perceber que nisto da vida não há que tomar partidos.
No fundo, o sumo e o rumo da vida.
Num beijo.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

o segredo da sanduíche


O V. é o recheio da sanduíche de irmãos. Claro que nas sanduíches o sabor também vem da qualidade do pão, é certo. Mas pão sem recheio não é, por definição, sanduíche.
Sem ele, a fratria não tinha graça. A tríada não era tríada, era díada.
E as relações a três são infinitamente mais ricas que as relações a dois, já lá explicava George Simmel (e eu, por minha vez, na minha tese de doutoramento!).
Mas, ser o irmão do meio, com tudo o que isso tem de música para os nossos ouvidos (viva o Sérgio!)  como dizia a M., que é prima deles, quando tinha quatro anos "deve ser um bocado apertado". E é, de facto!
O F. parece uma ventosa. Basta ver-me e cola-se-me à existência sem intervalos.
O A. basta não ter mais nada de interessante para fazer e suga-me a existência com programas de terapia ocupacional intensiva, que incluem infalivelmente trabalhos para a escola, projectos de mil coisas que quer fazer ou saídas inopinadas para concretizar essas coisas.
No meio (literalmente) disto está o V., que parece uma daquelas existências mágicas, pairando tranquilidade (até ao momento da fúria!) entre nós, com arremessos de provocação, humor e barulho (muito barulho, porque canta desalmadamente, batuca cruelmente em qualquer superfície dura e engoliu, de certeza, um disco do Bob McFerry - aquele que desapareceu há uns meses!).
O V. é uma caixa de surpresas. Mas daquelas sem chave. Não se arranca nada dele. Só muito de vez em quando sai de lá um suspiro de ar cujo aroma me cabe decifrar: angústia, medo, ciúme, insegurança, revolta...
Ontem, depois de chegarem de um fim-de-semana cultural com os avós, surpreendentemente, abriu-se momentaneamente a tampa da caixa.
- Tive saudades tuas, mãe!
E quase me vieram as lágrimas aos olhos...  porque às vezes é difícil lembrarmo-nos que o V. tem sentimentos como os nossos!