Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

quarta-feira, 24 de março de 2010

quando as coisas bonitas nos batem à porta, pela manhã

Depois de uma das muitas idas à prateleira-de-baixo (obrigada, Sal, pelas lições de vida), não resisti e ontem eles vieram bater-nos à porta, às 8h30m da manhã: esta é, sem dúvida, a melhor hora para receber livros novinhos, embrulhados num misterioso cartão! Desta vez, os livros eram todos para eles. Ou melhor, o pretexto tinham sido eles...
Por £26.63 (portes incluídos) desempacotámos 3 livros e 2 DVDs. Alguma coisa deve estar errada com o preço dos bems culturais no nosso país!


Este foi o primeiro a aparecer e aquele por que me apaixonara imediatamente...
...depois este era apetitoso...
 e como não tenho, em princípio,  nada contra a multimodalidade desde que tenha qualidade...
A seguir, este vinha mesmo a pretexto da matéria das aulas de inglês do A.
e ainda me entusiasmei com mais um Roald Dahl em DVD para ver se eles se habituam a ouvir histórias em inglês e não achar estranho. É que as dobragens vieram estragar o encanto dos originais e, além disso, não ajudam nada a ser poliglota.
Estamos todos felizes! E acho que já os convenci de que devemos ver muito para além do que se traduz e edita por cá.
Adormeceram os três ao som de Lost and Found. Porque a amizade traz bons sonhos!


segunda-feira, 22 de março de 2010

que te trouxe a primavera?

E a Regina Guimarães acrescentaria "embrulhada em céu azul e renda de chuva fina?"
A nós a Primavera trouxe-nos um embrulho com uma surpresa dentro.
Um fim-de-semana sonhado semanas a fio, a excitação do hotel (e sobretudo do pequeno-almoço!), o castelo, o paço dos duques, o vila-flor...
Eis senão quando uma janela de guilhotinha resolve pregar-nos uma (mão) partida.
Felizmente, há histórias para tudo, e hoje a caminho da escola conseguimos pôr o V. a rir. No carro foi só o princípio da história, mas agora vou pô-la toda aqui.
- Vamos, vamos! Está na hora! Aiii...! Uma chuvada enorme! Pronto, daqui já não saímos. Primavera maldita!
- Não fui eu! A culpa é da chuva que nos deixou metidos no hotel. Nós estávamos a tentar descansar e...
- Achas bem chuva insistente?
- Não fui eu! A culpa é do F. que se pôs na janela.
-Achas bem, F. curioso?
- Não fui eu! A culpa é do pai que não me deixava molhar a cabeça...
-Achas bem, pai zeloso?
- Não fui eu! A culpa foi do V. que me obedeceu e fechou a janela...
- Achas bem, V. obediente?
- Não fui eu! A culpa foi da janela teimosa. Eu tirei o suporte de um lado, ela não descia, tirei o suporte do outro e zás! ela caiu-me na mão...
-Achas bem, janela Antonieta?
- Não fui eu! A culpa é do inventor da guilhotina. Agora que não há cabeças, caio nas mãos de quem me apeteça!
- Já não há cabeças? Pois, já não há cabeças... Quem terá sido?
Foi mais ou menos isto que nos trouxe a Primavera. Quando cheguei de trabalhar, a história já estava completa e o V. com a mão engessada. Hoje, ardem-me os olhos das  sete lágrimas derramadas.
Nestas alturas, sinto-me como a Camila: uma espécie de mula branca com camisola às riscas. Mas isso já é outra história...

sexta-feira, 19 de março de 2010

come a sopa, F.!

Todas as noites à hora da sopa é a mesma coisa. (Desde que o Quino inventou a Mafalda o mundo deixou de ser o mesmo, e ainda bem!)
Cá em casa não haveria de ser diferente!
Mas, e se no fundo do prato estivesse mesmo... o Chico?
E, melhor ainda, se no fundo do prato estivesse o F. ou o V.? (O A. também tinha gostado mas acha que já é crescido de mais para isso.)
Afinal, é tudo uma questão de... imaginação? Ou talvez não!

quinta-feira, 18 de março de 2010

grandes invenções da humanidade

Ontem, o F. inventou a pirileca. Não sabemos exactamente o que é, mas parece-se com certeza com uma grua, um reboque e mais qualquer coisa. Levanta baldes com terra, pedras e automóveis. É cinzenta, preta, azul e cor-de-rosa como pode verificar-se na imagem.
Mas há outras grandes invenções da humanidade...
- Quando eu era pequenino, bebé, tu tinhas uma bolsinha e eu via tudo.
A bolsinha não é exactamente porque eu seja um marsupial (coisa de que não me importava nada!) mas porque a Rosa faz os mais lindos e confortáveis slings do mundo! (o desenho foi feito pelo V. em Janeiro de 2007)
Pirilecas ou slings, o mundo está cheio de grandes invenções da humanidade que nos fazem mais felizes!

terça-feira, 16 de março de 2010

ovos misteriosos II

- Sabes o fizemos hoje? - pergunta-me o F. quando o vou buscar à escolinha - Ovos de chococolate!
(o F. diz mesmo chococolate mas para compensar diz hiopótamo)
- A sério?
- A sério!
Ao jantar tentamos perceber como fizeram os ovos... mas não é fácil.
- Chococolate, leite... E tinha um fogão com pernas!
- E como é que fizeram o chocolate ficar redondo como os ovos? - quiseram saber os quatro pares de olhos curiosos, à volta da mesa.
- Com lápis... e caneta!
- Mas eram ovos assim lisinhos ou como os que temos no frigorífico, de pé? - perguntou um par de olhos.
- De pé!
- E fizeram com caneta? - inquiriu outro par de olhos.
- Caneta, lápis, cartão...
Não. Por ali, definitivamente, não chegaríamos lá.
O mistério dos ovos de chocolate merecia uma solução à altura da imaginação.
- Já sei! A única maneira simples de fazer ovos de chocolate... é arranjar uma galinha de chocolate! Uma galinha de chocolate põe ovos de chocolate!
Seria caso para dizer... "A minha mãe é óptima!"
Mas para dizer a verdade gosto muito mais de "O meu pai". E, afinal, ele também é óptimo!

segunda-feira, 15 de março de 2010

pequenas flores vermelhas


O F., ao meu colo, enquanto lemos um livro e a propósito, aparentemente, de nada:
- Sai uma asneirita e pumba! não tem piclo!
Eu explico. Na escolinha, às sextas-feiras, todos os meninos se juntam e fazem a avaliação do seu comportamento durante a semana. Depois, têm plico, ou não têm piclo, ou têm piclo emprestado. Os piclos são assim uma espécie de pequenas flores vermelhas.
Aliás, vimos o filme juntos e gostámos muito. O F. ainda não tinha os três anos feitos e viu-o três ou quatro vezes seguidas. O V. achou a professora mesmo má e o A. não se manifestou.
O filme é brilhante. Mas ainda mais brilhante foi a ideia da I. (a nossa  gambozina preferida que nos emprestou o filme) de lhe chamar "os pequenos picos de avaliação"!

sábado, 13 de março de 2010

o dia em que a mãe ficou com barriga de chaminé

No carro, os três no banco de trás. O V. e o A. contam que uma vez um cão de uma vizinha ficou com a cauda entalada na porta do elevador. A conversa estende-se, sobre caudas, e como as caudas são o prolongamento da coluna vertebral. Explico-lhes que nós próprios, na barriga da mãe, temos uma pequena cauda que depois enrola para dentro e se transforma no cóccix. O F. intervém, esclarecendo os irmãos em tom doutoral:
- Vocês estavam na barriga da minha mãe, a mãe C., tinha uma chaminé, depois vinha o pai com uma escada muito grande e desciam, desciam e nasciam! Era assim!
Bom, já tinha ouvido muitas teorias sobre técnicas de parto, mas confesso que a da chaminé me escapou!
Alguma semelhança entre uma mãe e um pai natal deverá ser mera coincidência, imagino...

sexta-feira, 12 de março de 2010

PNB

Eu leio, tu lês... ele não lê. A coisa era assim.
No presente, a conjugação é outra.
Eu leio, tu lês, ele não lia.
O A. não lia. Agora lê. Graças à Rosa e a uma coisa que vai rebentar de vez com o fascizante PNL.
O PNB. Plano Nacional de Bidé.
Não é piada. É um assunto muito sério. A ideia é da Rosa. E funciona!
Ontem de manhã o V. veio-me perguntar:
- Ó mãe, a regra do bidé não é que só pode ler quem está lá? É que o A. não sai de lá e eu também quero ler!
Exactamente. O A. agora senta-se e não pára de ler graças ao PNB.
A estratégia é simples: põem-se dois ou três livros no bidé e deixam-se lá ficar.
Eu leio, tu lês, ele lê, nós lemos, vós leis, eles lêem.

Porque, como toda a gente sabe, não há sítio mais sossegado para ler!

quinta-feira, 11 de março de 2010

ovos misteriosos



Às quartas feiras é dia de ACORDA. Os manos grandes divertem-se sob a orientação dos fantásticos alunos da Paula (a Carla, o João Pedro, o Hugo e a Rita) e o F. e o seu amigo P. brincam e correm alegremente pelo ginásio. Às vezes guerreiam...
Hoje, resolveram o problema com a minha sugestão de chocarem a bola verde que disputavam. E nada como chocar bolas de cores para fazer soltar as bolhas da imaginação. Dos ovos-bolas nasceram crocodilos, pintainhos, elefantes, gatos, sapos e andámos atrás deles pelo ginásio fora.
- Olha que gatinho tão fofinho! - dizia o P.
- Mãe, ouve, este está a fazer barulho... - acrescentava o F.


E, a certa altura, o P. pousou uma bola-ovo no chão e declarou:
- Olha, uma árvore! Nasceu uma árvore do meu ovo!
E uma enorme árvore medrou e medrou e medrou...

quarta-feira, 10 de março de 2010

cidade das maravilhas

Uma escavadora a fazer um buraco mesmo em frente ao portão da escolinha esperava-nos ontem pela manhã. À tarde não resisti a inquirir o F. sobre as obras do saneamento.
- Então, a escavadora?
- Sabes, mãe, estão a fazer uma piscina... uma não, duas: uma para pequeninos, outra para grandes!
- Ai é? E qual é a vossa?
- A dos pequeninos é esta, no passeio e a dos grandes... estás a ver, ali, onde está a outra escavadora? ali é a dos grandes! Sabes, tem muuuuita água!
E dali, seguimos para o parque para aproveitar o sol.
Finalmente, um parque com relva que se pode pisar e onde se deve rebolar, uma caixa de areia, equipamentos inovadores e seguros, um segurança omnipresente, wc auto-higienizado e... muito verde em volta.
Da próxima vez havemos de ir explorar a outra parte da quinta: a floresta. Quem sabe encontraremos criaturas maravilhosas à nossa espera, atrás das árvores ou mesmo penduradas nelas!
Este não é, definitivamente o país das maravilhas, mas tudo depende do campo de visão e, sobretudo, dos olhos que o vêem. E se o país não é, a cidade ainda pode sê-lo. O Porto ainda é, muitas vezes, aos olhos deles (e aos meus, também, sobretudo quando estou com eles) a cidade das maravilhas.

segunda-feira, 8 de março de 2010

o país das maravilhas


O A. e o V. nunca tinham ido ao cinema. Não é ver cinema, é ir ao cinema, mesmo.
Hoje faltaram à escola para entrarem numa sala de cinema, que abre as portas para a rua.
E o V. declarou:
- É isto um cinema? É muito melhor!!!
E estivemos sentados no hall de entrada, à espera do pai e da Sarita e da Emília que vieram connosco para entrar num buraco atrás de um coelho branco.
Tim Burton deixa-me sempre assim. Com a sensação de que caí na tentação de gostar que uma coisa de que não gosto. Pelo menos, completamente.
Mas é inevitável a rendição final ao passeio pelo país das maravilhas. Por mim, dispensava os óculos, as 3D, o som surround e os monstros modernos.
Só me preocupa que alguém vá ver o filme sem antes conhecer a Alice de Carroll e Tenniel. Verá muito menos que nós. As intertextualidades são talhadas à medida de cada um, é inevitável.
Ninguém pode viver os nossos sonhos por nós. Nem mesmo os que passam numa sala de cinema.

domingo, 7 de março de 2010

casa da música

Os Gambozinos são a outra casa deles.
Às vezes, transforma-se na nossa outra casa, também, onde podemos passar uma tarde inteira a ouvir pessoas pequeninas e pessoas menos pequeninas a fazer música.
De repente, transformamo-nos, assim, numa espécie de enorme família musical, graças à Suzana.

quinta-feira, 4 de março de 2010

o avô deles

O V. à noite, na cama, barriga para o ar, os olhos verdes, pensativos:
- Sabes, mãe, aquilo de eu e a Margarida... eu nunca vou casar com ela, mas se eu casasse com ela e tivesse filhos... eles iam ter um bom avô!
Fico tão contente quando eles gostam assim de outros adultos!

É PROIBIDA A ENTRADA A QUEM NÃO ANDAR ESPANTADO DE EXISTIR

O sol trouxe os amigos. A Sarita, ontem. A Emília, hoje.
Há alturas em que me sinto um iman. As pessoas bonitas vêm colar-se a mim, sem lhes pedir e sem que peçam nada.
A Emília, eu e a Sarita somos três gerações de uma escola que já ninguém mais vai conhecer.
Uma escola pública em que a vida era mais importante que o resto e, por isso, amarravam-se fios em volta de pessoas como nós.
E a única que ficou no sistema fui eu...
A vida é irónica, para quem ouviu ler As aventuras de João sem medo pela voz doce da Emília!

terça-feira, 2 de março de 2010

à noite, os caixotes do lixo

O escritório do Arquitecto C. Prata vai mudar-se daqui, consta. Um ror de meninas carregaram pesados caixotes atafulhados de catálogos de materiais de construção para junto dos caixotes do lixo.
Não resisti. Debaixo de chuva, fomos os quatro vasculhar nos caixotes.Uma visita de estudo ao entulho precioso. E viemos para casa carregados de quadradinhos de linóleos coloridos, rectângulos de grés de mil cores e outras preciosidades.
O V. e o A. montaram uma loja. O F. ficou a adormecer fascinado com os montes de quadradinhos coloridos que descolámos dos catálogos encharcados. Já temos com que brincar durante muitas semanas!
Pode ser que amanhã as meninas voltem. E deixem mais brinquedos para nós...

segunda-feira, 1 de março de 2010

às armas

O F. inventou uma nova ameaça:
- O meu pai tem uma pistola e está partida!
(é verdade, era o único brinquedo que guardara da sua infância e eles partiram-na...)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

domingo com chuva


Acho que estava à espera deste dia desde que o F. fez um ano.
De repente, depois do som da tesoura a cortar o papel, dos baldes de lápis a pousar no papel teimoso, sempre a enrolar-se, e do schhh das canetas a deslizar, o F. veio chamar-me.
Saí do meio das mesas da sala de jantar do feliz idade e...
Elas estavam lá! Todas, tantas! Vermelhas, à volta de um sofá azul e com letras em cima.
Ainda bem que há domingos com chuva.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

vento (nos salgueiros ou nem por isso)


A meteorologia anuncia ventos ciclónicos.
O F. ouve o vento e corre para a janela. Afinal, não é o camião do lixo...
- Pai, o céu onde os pássaros estão a voar está a mexer!
Alguém disse qualquer coisa parecida quando estava na fogueira.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

a máquina


A morte de joão da silva esteves aconteceu-me ali mesmo, no passeio, por entre as sapatilhas dos adolescentes que entravam e saíam da escola. Caiu-me aos pés como um pedregulho. Fiquei o dia todo numa espécie de luto literário.
E nem me apeteceu ir comer um pastel...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

princesas e sapos


O F. ultrapassa os dois degraus que separam a sala de cima da sala de baixo. Esparramado, como um sapo (acho até que está um pouco esverdeado), chama-me.
- Então, o que aconteceu?
- Trambolhei!

E eu, aqui, a usar o F. para falar de "A princesa e o sapo" e do estado de choque em que fiquei perante mim própria por ter gostado tanto do filme. A meu favor, as sessões de desenhos animados no cinema Foco, com os avós, ao domingo de manhã, e o facto de não suportar a frieza estética da animação por computador. Estarei mesmo a ficar... antiga? Estou a ficar tão em paz com o facto que já me apetece ir ver o filme outra vez, para ter a certeza de que é verdade.