Das histórias nascem histórias

Das histórias nascem histórias
um poema visual de Fernanda Fragateiro

terça-feira, 2 de março de 2010

à noite, os caixotes do lixo

O escritório do Arquitecto C. Prata vai mudar-se daqui, consta. Um ror de meninas carregaram pesados caixotes atafulhados de catálogos de materiais de construção para junto dos caixotes do lixo.
Não resisti. Debaixo de chuva, fomos os quatro vasculhar nos caixotes.Uma visita de estudo ao entulho precioso. E viemos para casa carregados de quadradinhos de linóleos coloridos, rectângulos de grés de mil cores e outras preciosidades.
O V. e o A. montaram uma loja. O F. ficou a adormecer fascinado com os montes de quadradinhos coloridos que descolámos dos catálogos encharcados. Já temos com que brincar durante muitas semanas!
Pode ser que amanhã as meninas voltem. E deixem mais brinquedos para nós...

segunda-feira, 1 de março de 2010

às armas

O F. inventou uma nova ameaça:
- O meu pai tem uma pistola e está partida!
(é verdade, era o único brinquedo que guardara da sua infância e eles partiram-na...)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

domingo com chuva


Acho que estava à espera deste dia desde que o F. fez um ano.
De repente, depois do som da tesoura a cortar o papel, dos baldes de lápis a pousar no papel teimoso, sempre a enrolar-se, e do schhh das canetas a deslizar, o F. veio chamar-me.
Saí do meio das mesas da sala de jantar do feliz idade e...
Elas estavam lá! Todas, tantas! Vermelhas, à volta de um sofá azul e com letras em cima.
Ainda bem que há domingos com chuva.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

vento (nos salgueiros ou nem por isso)


A meteorologia anuncia ventos ciclónicos.
O F. ouve o vento e corre para a janela. Afinal, não é o camião do lixo...
- Pai, o céu onde os pássaros estão a voar está a mexer!
Alguém disse qualquer coisa parecida quando estava na fogueira.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

a máquina


A morte de joão da silva esteves aconteceu-me ali mesmo, no passeio, por entre as sapatilhas dos adolescentes que entravam e saíam da escola. Caiu-me aos pés como um pedregulho. Fiquei o dia todo numa espécie de luto literário.
E nem me apeteceu ir comer um pastel...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

princesas e sapos


O F. ultrapassa os dois degraus que separam a sala de cima da sala de baixo. Esparramado, como um sapo (acho até que está um pouco esverdeado), chama-me.
- Então, o que aconteceu?
- Trambolhei!

E eu, aqui, a usar o F. para falar de "A princesa e o sapo" e do estado de choque em que fiquei perante mim própria por ter gostado tanto do filme. A meu favor, as sessões de desenhos animados no cinema Foco, com os avós, ao domingo de manhã, e o facto de não suportar a frieza estética da animação por computador. Estarei mesmo a ficar... antiga? Estou a ficar tão em paz com o facto que já me apetece ir ver o filme outra vez, para ter a certeza de que é verdade.

manhãs

Estas manhãs altruístas, com um pouco de sol, trazem-me coisas à cabeça. Os livros. Sempre os livros. E alguns fios de cor para começar a tricotar a Primavera.
Faz-me falta o burburinho dos mais pequenos. Mas o silêncio também me assenta bem, às vezes. Divirto-me com o gato que tenho nas botas novas.
Nunca tive umas botas azuis. Nem um gato nas botas. Talvez uma homenagem inconsciente a Alice. Ou a Burton, quem sabe.
O azul das botas vai espalhar-se pelo ar. Como a minha camisa e as calças de ganga. Tudo azul. E uns blues, para acompanhar.